Sabe-se que a prostituição é considerada uma das profissões mais antigas do mundo, e que por causa disso mesmo, existem muitos relatos de sua atuação em quase todas as civilizações, desde a mais primitiva até a mais evoluída. Mas, embora a prostituição tenha começado entre as mulheres das classes mais desfavorecidas, o homem, quer pelos mesmos motivos ou não, começou a se prostituir abrindo com isso um novo leque de opções para aqueles que buscam comprar sexo e prazer.

Tem sido assim desde o início da humanidade, onde pessoas preocupadas com a moral e os bons costumes sempre criticaram a prática da prostituição. Mas, enquanto o mundo preocupava-se com a prostituição dos homens e das mulheres, uma nova classe de prostitutas surgiu: As travestis. Hoje é comum vê-las à noite nas esquinas, ruas, praças e avenidas das grandes cidades procurando venderem sexo e prazer.

Para entendermos esse fenômeno social é preciso tirar as vendas do preconceito dos olhos e analisar quem de fato são as travestis. Para responder a essa pergunta é preciso seguir por muitas trilhas, perseguir códigos e fixar-se em corpos metamorfoseados. “Cassandra”, travesti que vem atuando nesse ramo há cinco anos, afirma que ser travesti implica lutar contra a natureza em busca da feminilização. “Tem que colocar silicone, tomar hormônio e, sobretudo, desafiar a sociedade.”

De fato, o uso de hormônios é fundamental para a construção da travestilidade, pois essa substância misturada ao sangue instaura um desemquilíbrio no organismo transformando um corpo masculino em um feminino. “O problema dos hormônios é que eles levam no mínimo cinco semanas para agir, e por causa disso mesmo, muitos travestis optam colocar silicone”, declara “Lallato” que é conhecida como veterana entre as travestis que fazem programa no retorno da COHAB.

Mas independente do método, o que todos os travestis buscam é uma perfeita feminilização, ainda que sob altos riscos como é o caso das cirurgias clandestinas de próteses de silicone. Segundo “Mauraya”, muitas de suas amigas e companheiras de esquina já faleceram vítimas do uso indiscriminado de silicone e de hormônio. “Sou consciente do risco que corro, mas a vida que levo me obriga a perseguir um ideal de beleza, pois como em todo lugar, existe uma grande competição e disputa tanto pelos clientes como pelo território e uma travesti bonita, extremamente feminina é altamente valorizada”, enfatiza.

Mas o que leva os travestis a se prostituirem? O mercado de trabalho é acessível a eles? Será que é comum ver um travesti médico, advogado, ou recepcionista que seja? Essas perguntas são pertinentes porque nos convida a uma profunda reflexão; o preconceito não apenas nos fecha, mas também nos marginaliza.

“Bianca Ferraz”, travesti que atua na Avenida São Luis Rei de França, diz que está no ramo da prostituição porque não tem outra escolha. “Vivo sozinha, tenho que pagar aluguel, água, luz e minha alimentação básica. Fui jogada pra fora de casa desde que assumi minha homossexualidade. Se tivesse um emprego decente, eu largaria essa vida”, declara. Quando interpelada sobre se o ramo da prostituição é lucrativo, “Bianca” afirma que a questão é muita relativa porque depende do cliente. “Se for o varejão, ele pechincha até o preço cair para vinte e cinco reais, o penoso sai com agente e no fim diz que não tem dinheiro ou simplesmente que não vai pagar, e por ultimo o fino que na maioria é uma maricona que apesar de pagar o preço estipulado exige que agente faça coisas absurdas”, explica.

Há, contudo, que se ressaltar que muitos travestis exatamente por estarem na prostituição estão à mercê da criminalidade onde a todo o momento muitos são assassinados por coisas banais como assalto ou “disputa de território”. Além disso, quando procuram ajuda policial são veementemente escorraçadas como se não tivessem valor algum.

Diante disso, muitos travestis, como “Laura Katryn” conhecida no pistão da Avenida São Luís Rei de França como top, por ter conseguido um corpo escultural e feminilíssimo, por exemplo, não vêem outra escolha senão ingressarem também no mundo da criminalidade. “Quando um cliente, diz que não vai me pagar, eu que saio sempre armada com um estilete, faca ou mesmo revólver, não só o obrigo a pagar como lhe roubo todo o dinheiro e outros pertences.

Além disso, tenho que enfrentar delinqüentes que na calada da noite tentam me agredir com acusações de ser uma disseminadora da AIDS. Mas para isso eu preciso estar brisada”, afirma fazendo referência também ao uso das drogas. Isso prova que não só é um erro estigmatizar uma determinada classe ou prática como também, pode acarretar outros males, e que sem dúvida a melhor forma de erradicá-la é procurarcompreendê-la e, sobretudo, enxergá-la além da ótica do preconceito.