Parada pelo orgulho da diversidade sexual de São Luis: um espetáculo ou uma mobilização política?

A parada pelo orgulho da diversidade sexual de São Luis, que já está em sua sétima edição, cada vez mais vem adquirindo um público diversificado e de grandes proporções. Só no ano passado cerca de 400 mil pessoas entre gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e simpatizantes do movimento lotaram a Avenida Litorânea. Para este ano a estimativa é que 5000 mil façam parte da parada pelo orgulho da diversidade sexual de São Luis. Mas por que este movimento, que é o maior movimento de rua de todo o Maranhão cada vez mais vem se consolidando na agenda cultural da cidade de São Luis e por que é cada vez maior o número de seus participantes? O que de fato significa esta mobilização e que lutas ele encerra?

De acordo com Carlos Garcia, um dos coordenadores da Ong Gayvota, grupo GLBT pioneiro do movimento aqui no Maranhão, a parada pelo orgulho da diversidade sexual é a celebração máxima onde todos os gays, bissexuais, travestis e transexuais se reúnem para festejarem suas conquistas e também mostrarem à sociedade quem são e pelo o que lutam de fato. “A parada pelo orgulho da diversidade sexual é o dia em que nós gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais nos reunimos a fim de festejarmos e celebrarmos as nossas conquistas, bem como mostrar à sociedade os nossos valores e que devemos ser respeitados enquanto cidadãos, pois a nossa constituição nos garante que somos iguais perante a lei independente de qualquer natureza”, afirma.

Todavia, muitas pessoas do próprio grupo social GLBT criticam esta mobilização. Segundo estes, falta no evento o verdadeiro caráter político que possa traduzir com mais fidelidade as principais reivindicações do movimento GLBT tais como a união civil entre pessoas do mesmo sexo, punição e amparo pelos crimes sofridos por homofobia e liberdade pela diversidade sexual.

O grupo Gayvota, articulado com outros grupos como a ATRAMA (Associação das travestis no Maranão), Lema (Grupo Lésbico do Maranhão), é quem promove a parada pelo orgulho sexual de São Luis. O evento, segundo a coordenação do grupo Gayvota, só vai para a avenida e ganha caráter de mobilização, após uma meticulosa reunião entre as Secretarias dos Direitos Humanos, Segurança Pública e de Saúde, representantes políticos e integrantes e filiados ao grupo gayvota, onde são debatidas as principais questões, lutas e conquistas que o movimento GLBT realizou durante o ano. Só depois disso é que o tema do evento é selecionado, e por fim aprovado para que possa servir como diretriz durante a mobilização. Este ano, por exemplo, a parada traz como tema; “Travesti e respeito”, como forma de protesto pelo assassinato da travesti Sabrina Drumonnd, presidente da ATRAMA.

Contudo, essa critica pela falta de cunho político durante a mobilização, se dá sem dúvida por causa da falta da participação de alguns políticos, sobretudo por aqueles que dizem apoiar o movimento GLBT como é o caso dos vereadores Astro de Ogum e Ivaldo Rodrigues, que embora gay’s assumidos, e que buscam entre o grupo GLBT fonte de eleitores, não são ativistas do movimento.

De fato, segundo Carlos Garcia, são muitos os políticos que procuram apoio no movimento GLBT. Todavia, a grande maioria acha que esse apoio pode se reduzir em apenas conceder um trio elétrico ou uma atração qualquer durante a parada pelo orgulho pela diversidade sexual. “O que nós precisamos de aliança política, nada mais é do que ter representantes que possam abraçar nossas causas e lutar junto com conosco para que, as mesmas, possam ser uma realidade, como conseguimos com o então deputado estadual Alberto Franco, que nos concedeu uma lei que nos protege e ampara contra os crimes de homofobia em nosso Estado”, enfatiza.

A ex-primeira dama do Estado, Alexandra Tavares no ano de 2005 foi eleita madrinha do movimento, tornando o Governo do Estado, juntamente com o ministério da Saúde um dos principais patrocinadores da parada pelo orgulho da diversidade sexual de São Luis. Este ano, é a primeira vez que a prefeitura de São Luis vai patrocinar e apoiar a mobilização, o que deixa a coordenação do evento extremamente satisfeita, pois assim poderá fazer mais alianças políticas independente de partidos políticos.

O movimento GLBT do Maranhão, ao contrário do que muitos pensam, não está engajado apenas em promover a parada do orgulho pela diversidade sexual. Coordenado sempre pelo grupo Gayvota e outros afiliados como o Passo Livre, Grupo Sem Preconceito e Grupo Alternativo de Paço do Lumiar, Grupo Solidário Lilás de Ribamar, o movimento GLBT maranhense tem como objetivo maior erradicar a exclusão social que o grupo sofre, bem como lutar contra a homofobia e o próprio preconceito.

Prova disso, é o projeto “a deusa Afrodite”, que é um projeto do movimento que busca amparar e proteger as travestis, que segundo a Atrama, são quem mais sofrem preconceito. “O projeto tem como objetivo incluir de volta as travestis no seio da sociedade, quer incentivando-as a estudar, ingressar em uma faculdade e em todos os pólos profissionais, e para isso deverão ser tratadas e respeitadas como mulheres”, afirma Keyla Simpson, representante interina da Atrama.

Além disso, o grupo Gayvota está sempre apto e pronto para reivindicar e lutar pelos direitos da classe social designada GLBT, e para isso convida todos os gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais a se unirem ao grupo que tem sua sede na Rua da Saúde/ Centro.

Essa articulação é também, feita através de seminários e palestras que são ministradas geralmente em casas noturnas GLBT de São Luís, onde as diretrizes e política do movimento são perpassadas para àqueles que tenham interesse em se filiar.

É justamente neste âmbito da divulgação, que o movimento GLBT de São Luis diz que o apóio da mídia maranhense, está resumido apenas a própria parada pelo orgulho da diversidade sexual, pois seu caráter espetacular torna-se mais importante do que seu cunho político diante desta.

O fato é que o evento da parada pelo orgulho da diversidade sexual, tomou proporções gigantescas, tanto que a mobilização está também sendo realizada em outras cidades do interior do Maranhão como são os casos de Paço do Lumiar, São José de Ribamar e Raposa. De fato, a parada pelo orgulho da diversidade sexual de São Luis, articulada com todos esses grupos e coordenada pelo grupo Gayvota, tornou-se desde o ano de 2003, ano de sua primeira edição aqui no Maranhão, a terceira maior parada pelo orgulho da diversidade sexual do Brasil, perdendo apenas para o Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Homofobia x preconceito

O cerne da luta do movimento gay pesa sobre dois grandes pilares; a luta contra a homofobia e contra o preconceito. Destes dois pólos, um tanto quanto diversificados, todas as demais lutas do movimento gay procuram suas diretrizes e engajamentos para defenderem seus direitos civis e humanos.

Mas sendo gay ou não, todos nós precisamos saber fazer a distinção entre o que é homofobia e o que é preconceito, uma vez que pode até ser tolerável que eu seja preconceituoso, mas homofóbico não.

Isto por que, homofobia, que é a caracterização da aversão à homossexualidade, é considerada um crime. Tanto que muitos Estados, como o Maranhão, já institucionalizaram o combate a homofobia através de projetos de lei.

Essa medida tem levantado muitos questionamentos, sobretudo naquilo que tange à liberdade de expressão, que garante a todo e qualquer cidadão brasileiro, manifestar-se de acordo com aquilo que ele julga certo e correto. Assim, por exemplo, um homem tem todo o dinheiro de não gostar da prática da homossexualidade ou mesmo de conviver com um gay. Ele pode até gritar para os quatro cantos do mundo essa sua posição e comportamento preconceituoso, e não será punido por causa disso, pois a Constituição Federal lhe dá esse direito. Mas o que ele não pode é ter uma atitude homofóbica como, por exemplo, agredindo um gay de forma verbal, moral ou física.

O x da questão reside exatamente em saber que emitir uma opinião pode ser caracterizada como preconceituosa ou não, e a pessoa é livre para ter preconceitos e opiniões, embora essa não seja uma atitude muito louvável, pois a própria palavra preconceito emite um conceito previamente formulado antes de se conhecer as coisas de fato.

Vivemos em um país democrático e de liberdade de expressão e exatamente por isso que o preconceito é tolerável e até respeitado enquanto opinião. Mas a homofobia que, não só é aversão criminosa à homossexualidade, mas também fruto de uma concepção de que ser homossexual é uma aberração que deve ser combatida, esta sim precisa ser vigiada, coibida e punida, pois muitos crimes de homofobia não se limitam apenas à agressão física, moral ou verbal, mas também a homicídios, como foi o caso do assassinato de Sabrina Drummond, travesti assassinada na Avenida Guajajáras em fevereiro, vítima de um serial killer homofóbico, e que confessou que já havia matado mais três travestis pelo simples fato de serem homossexuais.

Portanto, é tolerável ter preconceito contra homossexuais, desde que este se limite a uma mera opinião e comportamento. Mas quando a coisa parte para uma atitude e ação, caracterizando-se em homofobia, será certamente punida. Os direitos humanos e civis também garantem que ninguém deva sofrer qualquer tipo de agressão por causa de sua religião, opinião, liberdade de expressão e sexo.

Dizer não a homofobia, é provar acima de tudo que, se é um cidadão de bem, e uma pessoa evoluída socialmente, uma vez que ser homofóbico é o mesmo que ser criminoso perante a sociedade.

Exclusiva entrevista com o Pastor que trouxe para São Luís a polêmica Igreja Evangélica para homossexuais

A Comunidade Cristã Nova Esperança (CCNE), uma igreja evangélica que tem por objetivo a inclusão daqueles que se sentem excluídos do seio da cristandade, entre os quais se pode citar os homossexuais, chega em São Luis. Eu, Cézar Júnior, entrevistei Flavio Jorge de Almeida (28), líder da igreja aqui em São Luis, e é ele quem nos conta um pouco dos principais fundamentos desta polêmica igreja.

Cézar Júnior: Como surgiu a idéia de criar uma igreja que apóia e não condena a homossexualidade?

Flávio Jorge: A CCNE é uma igreja inclusiva e que tem por objetivo, incluir todo e qualquer indivíduo que queira adorar ao Senhor Jesus Cristo, independente de qualquer condição. Infelizmente o que a maioria das igrejas evangélicas fazem é querer curar ou exorcizar a homossexualidade, como se esta fosse uma doença ou pecado. Nós aceitamos o indivíduo homossexual, por que acreditamos que é esta a vontade de Deus. Ser homossexual não é uma escolha. Então como eu posso querer obrigar um homossexual a deixar de ser homossexual. Além disso, o fato dele ser homossexual não pode e nem deve impedi-lo de adorar ao Senhor.

CJ: Mas existem passagens bíblicas onde existe condenação à homossexualidade. A CCNE tem uma doutrina específica?

FJ: Pregamos o mesmo evangelho que as demais igrejas evangélicas pregam. O que nos diferencia é que não procuramos condenar pessoa alguma. Essas passagens bíblicas, onde existe uma suposta condenação à homossexualidade, foram traduzidas de forma errada, por que não foram levados em consideração todo o contexto social e histórico da época em que foram escritas.

CJ: Então você está afirmando que a homossexualidade não é um pecado?

FJ: Sim. Deus nos deu o livre arbítrio, e tudo que depende de uma escolha, para o bem e para o mal, isso sim pode vir a ser pecado. No caso da homossexualidade é algo inerente ao sujeito. Ele não escolhe ser homossexual. E se ele não pôde escolher então não pode ser julgado por isso.

CJ: Quantos anos já tem a CCNE e como ocorre sua implantação no país?

FJ: Nossa matriz em São Paulo já tem seis anos, e a idéia é criar células em todo o país para que no futuro possam virar igrejas. É justamente este o trabalho que estamos realizando aqui em São Luis, onde já conseguimos alguns adpetos e fieis, que descontentes com a postura de exclusão das demais igrejas, estão nos procurando. São pessoas com fome de adorarão a Deus e que se vêm impedidas de fazerem isso.

CJ: Mas quando vocês usam o termo inclusiva, está se referindo apenas aos gay’s?

FJ: Não, não somos uma igreja exclusiva para homossexuais, ainda que a grande maioria dos fiéis seja homossexual. Nossa igreja está aberta para todos aqueles que se sentem excluídos de uma forma ou de outra.

CJ: Como está sendo a reação do público aqui em São Luis com a implantação da CCNE?

JF: A reação da maioria das pessoas é de surpresa, afinal somos ensinados de que a homossexualidade é um pecado mortal diante de Deus e um erro diante dos homens. Mas muitos estão se propondo a conhecer de maneira profunda o evangelho inclusivo.

CJ: Você próprio afirma que a maioria dos fieis que procuram a igreja são homossexuais. Você é homossexual?

FJ: Sim eu sou, e encontrei na CCNE uma igreja que ao invés de condenar-me por isso, me acolhe e me estimula a ser um verdadeiro cristão e não mais me sinto envergonhado diante de Deus.É claro que quando dizemos que aceitamos a homossexualidade, isto não quer dizer que aceitamos a luxúria, a licenciosidade, a promiscuidade e a perversão sexual.

CJ: A CCNE vai realizar casamentos entre homossexuais?

JF: As igrejas que já estão atuando em Fortaleza, Natal e São Paulo já fazem isso e aqui não será diferente. Se aceitamos que a homossexualidade não é um pecado, então por que não permitir que duas pessoas do mesmo sexo, que realmente se amam, possam se unir.

CJ: Quem são os mais veementes opositores da CCNE; os evangélicos ou os católicos?

FJ: Os evangélicos sem dúvida, por que acham que estamos deturpando o Evangelho que eles pregam, quando na verdade estamos apenas lutando para salvar tantas vidas, tantos gay’s que andam perdidos, sem rumo, achando que Deus as condena e abomina. Nosso exemplo maior é o próprio Jesus, que invalidou paradigmas religiosos que oprimiam vidas, e ele foi perseguido justamente por isso. Ele amou ao invés de odiar. Ele abraçou ao invés de abominar e tocou ao invés de enojar.

CJ: Mas o que dizer dos muitos casos de ex-gay’s,  que ingressaram em uma igreja e foram libertos da homossexualidade?

FJ: Olha o que existe e acontece, é que muito apenas deixam de viver, praticar a sua homossexualidade. Mas isto não significa que deixam de ser homossexuais, pois seus desejos e sentimentos continuam inalterados. É da nossa natureza. Nascemos homossexuais, fomos criados assim e se Deus abominasse ele não nos teria feito assim.Assim como nascemos com a cor dos nossos olhos e não podemos mudar isso, ninguém também pode fazer alguém deixar de ser gay. Eu já vi muitos testemunhos de gay’s que  tentaram de todas as formas serem libertos e curados da homossexualidade e de outros que supostamente foram curados pelos rituais de certas igrejas, e afirmo; todos sãos ex ex-gay’s. “ Por ventura pode um etíope mudar a sua pele, ou um leopardo mudar as suas manchas?” Je 13;23

CJ: A CCNE está engajada com o movimento gay daqui de São Luis?

FJ: Não, por que a nossa proposta não é política, embora nós já fomos procurados pelo grupo Gayvota para também sermos ativistas dos direitos dos homossexuais. É claro que se formos procurados apenas para pregar o Evangelho Inclusivo, estaremos aqui de portas abertas.

CJ: Aos interessados como fazer para congregar-se a CCNE aqui em São Luis?

FJ: Nossa célula fica na Rua João Manoel Cunha n° 02 Cohab, onde temos cultos, palestras, sermões e debates todos os domingos às 18h: 30. Aproveitando o ensejo convido a todos para nos visitarem e conhecerem o nosso evangelho de inclusão e amor ao próximo. Estamos sempre dispostos pelos telefones: 8873 9626, 8803 3755, 81895740, e também pelo e-mail: ccne.sl@hotmail.com, e   pelo orkut saoluiz@ccne.org.br.