Negligência profissional pode custar uma vida.

Segunda-feira ( 06/06/2011)

            Daniel de Oliveira Ferreira (19), estava retornando para casa, após uma noite de trabalho como moto-taxista. Sempre muito cauteloso, Daniel jamais se excedia na velocidade. Não por que a pressa não fosse seu lema, mas por que, como motorista e piloto procurava sempre respeitar as leis de trânsito, por que assim sabia que estaria respeitando a vida no trânsito.

            Além disso, a preocupação de seus pais, por ele está sempre imiscuído no trânsito caótico da cidade de São Luís, fazia com que Daniel dirigisse e pilotasse sempre com cautela.

            Mas nesta noite um grave acidente viria acometer Daniel. Durante seu percurso na Avenida Lourenço Vieira da Silva, no bairro do São Cristovão, em frente ao Terminal de Integração, um ônibus da empresa Viação Abreu, da linha Vila J. Lima de numeração 54025, após uma curva negligente, fez com que Daniel colidisse sua moto na traseira do ônibus.

            No impacto Daniel foi jogado na pista e muito assustado, constatou que havia sofrido um ferimento na altura do joelho direito.

            O motorista do ônibus, ainda mais assustado, rapidamente procurou evadir-se do local. Talvez por que soubesse que foi sua manobra negligente que havia causado o acidente, uma vez que o mesmo não tinha feito o retorno pela via lateral antes de adentrar o terminal da Integração, como então manda a Secretaria de Transportes Urbanos de São Luis.

            Daniel, ainda atordoado com a pancada, olhou em volta de si, tentando encontrar um amigo naquela hora tão difícil de sua vida, enquanto a dor em sua perna aumentava progressivamente. O sangue rapidamente começa a condensar-se, tornando-se mais escuro e aos poucos começou a estancar. Contudo a dor ainda era intensa. “Será que fraturei minha perna”, pensou Daniel reprimindo um grito agudo de dor.

            O trânsito automaticamente congestionou-se, pois Daniel e sua moto ainda permaneciam estirados no meio da pista à espera de socorro.

            Foi então que nesse momento, no meio de uma multidão de curiosos que então havia se formado em volta do acidentado, Daniel viu um rosto conhecido, um amigo seu. Com os olhos cheios de esperança ele pediu ao amigo que ligasse para seus pais informando o que havia acontecido. “Vai ficar tudo bem Daniel, eu já chamei uma ambulância e seus pais serão informados, trate de ficar calmo”, disse-lhe o amigo postando-se ao seu lado enquanto segurava-lhe uma das mãos trêmulas.

 Terça-feira (07/06/2011)

            Daniel deu entrada no Hospital Clementino Moura (Socorrão II), por volta da meia-noite. Como de praxe, foi atendido no pronto socorro, onde após um rápido curativo, o médico pediu um exame de Raios-X a fim de constatar se havia fratura.

            Nesse ínterim os pais de Daniel e outros parentes chegaram ao Hospital, todos ainda mais alarmados do que ele próprio. Mas o médico tratou de tranquilizá-los, afirmando que Daniel estava bem e em ótimo estado de recuperação. “Nesses casos de acidentes de moto o pior é o traumatizo craniano e por sorte Daniel estava de capecete”, afirmou o médico que dando uma rápida olhada do Raio-X franziu a testa em sinal de preocupação. “Bom o resultado do enxame está muito confuso, terei que pedi talvez outro exame e até lá o paciente ficará aqui em observação”.

            Os pais de Daniel com os olhos rasos de lágrimas aquieceram e foram se postar ao lado do filho que a essa altura já demonstrava um pouco mais de calma, embora ainda se queixasse de dor na perna.

            O resto da madrugada Daniel ficou à espera do médico para que pudesse autorizar um novo exame de Raios-X, mas ao invés disso, para sua surpresa, ele foi levado novamente para a enfermaria para um novo curativo onde desta vez, o corte ao lado de seu joelho direito foi ponteado. “Não se preocupe isso não irá atrapalhar o exame de Raios-X, um ferimento como este não pode ficar exposto dessa forma”, tranqüilizou-lhe a enfermeira.

            Pela manhã Daniel estava com febre e a dor em sua perna latejava esporadicamente. Um outro médico então foi indicado para lhe atender, e este assim como o outro, não deu qualquer parecer sobre se havia ou não uma fratura na perna de Daniel, mas constatando que a mesma estava muito inflamada, receitou anti-inflamatórios e antibióticos para tratar a infecção.

            Durante todo aquele dia, a família de Daniel visitou o hospital, e todos, sempre muito preocupados, procuravam saber qual era o seu diagnóstico. Mas o que a todos era informado era que Daniel tinha uma pequena infecção no ferimento da perna e que esta, estava sendo tratada e que por isso deveria continuar hospitalizado.

            Quarta-feira (08/06/2011)

            Daniel amanheceu acometido por uma forte febre e a infecção em sua perna demonstrava uma rápida progressão, pois toda a região em volta do joelho e parte da coxa estava arroxeada. Os próprios familiares de Daniel cogitaram se não seria mais aconselhável fazer um novo curativo no ferimento, ainda que tivesse que abri-lo novamente, pois diante do estado de Daniel, alguns já pensavam o pior. Mas os médicos mostraram-se irredutíveis, pois julgavam que estavam agindo de acordo com seus conhecimentos médicos. “Pode haver uma fratura na perna dele, mas isso será logo diagnosticado assim que a infecção retroceder. Vamos continuar com os antibióticos”, afirmou o médico com altivez.

            Quinta-feira (09/06/2011)

            A família de Daniel em um ato de desespero ao ver o estado de Daniel se agravar mesmo com o tratamento médico recebido, providenciou que este fosse transferido para um outro hospital público. Mas por questões burocráticas e por fim, por que os médicos do Hospital Clementino Moura, responsáveis por Daniel, estavam quase sempre ausentes e quando presentes nunca disponíveis para tratar do assunto, a transferência não foi efetivada.

            Sexta-feira (10/06/2011)

            A perna de Daniel estava completamente tomada pela infecção. A pele antes alva, estava toda roxa e fortemente inflamada. Um odor pútrido já começava a ser exalado do ferimento. Daniel então começa a delirar de febre. Seus olhos começaram a revolverem-se na órbita, enquanto sua pressão despencava.

            Franciara (20), prima de Daniel e que no momento fazia vigília ao seu lado, totalmente apavorada, saiu correndo e gritando por socorro.

            No corredor, ao encontrar com o médico, foi advertida que não deveria fazer todo aquele escândalo dentro de um hospital, onde havia pessoas doentes, algumas muito mais graves do que seu primo. “Além disso, pessoas estão sempre morrendo por aqui”, sentenciou o médico com rispidez.

            Somente depois, o médico foi atender Daniel, e ele próprio assustou-se ao perceber o rápido avanço da infecção em sua perna.

            Muito nervoso, o médico transferiu Daniel para o centro cirúrgico onde executou uma raspagem da ferida, bem como a extração do pus e secreção.

            Daniel quase inconsciente devido a febre, horas depois voltou para seu leito. Naquele momento toda sua família estava ali presente. Podia-se ouvir alguns murmúrios que, devido a infecção generalizada, a perna de Daniel podia ser amputada.

            Mas enquanto já se pensava isso, o próprio Daniel, devido aos fortes efeitos da anestesia, parecia deslocado, onde não conseguia emitir nem mesmo um só gemido de dor.

            Seus pais fitavam o filho com lágrimas nos olhos, rogando a Deus para que não permitisse que a perna dele fosse amputada e que a mesma fosse sarada. Suas primas, pediam forças para que ele continuasse resistindo.Seus tios, que todo aquele tormento acabasse e que Daniel fosse restabelecido. Seus amigos, que a maldita infecção cessasse.

            Mas durante todo aquele dia Daniel, muito fraco vez por outra murmurava que queria ir para casa, que não agüentava mais aquele lugar, e pedia que, se alguém pudesse, fizesse a dor parar.

            Com seus olhos turvos, mergulhado em um leito febril, sentindo fortes calafrios, e sem jamais ter coragem de olhar para o estado em que se encontrava sua perna, Daniel olhava cada um de seus parentes, sentindo que cada um deles compartilhava de sua dor. E embora não conseguisse falar, pedia em seu coração a Deus que queria viver. Não apenas por que amava a si próprio, mas por que não desejava causar dor alguma a seus pais, à sua família.

            Sábado

            Na madrugada de sábado, o estado de Daniel agrava-se mesmo após a cirurgia e os médicos cada vez mais receosos, transferem Daniel uma vez mais para o centro cirúrgico para uma nova sessão de raspagem, e desta vez, em um ato de desespero, para tentar estagnar o avanço da infecção (gangrena?) grande parte do músculo da perna de Daniel é removido.

            Mas a pressão de Daniel cai vertiginosamente, seu corpo sofre convulsões e seu ritmo cardíaco começa a desacelerar rapidamente. Os médicos boquiabertos vêem a morte de Daniel, bem ali na frente deles, na mesa de cirurgia.

            Enquanto isso a família de Daniel, com grande aflição, matem-se firme pelos corredores do hospital à espera de uma notícia ou mesmo de verem Daniel descendo em uma maca em um estado melhor.

            Mas ao invés disso é uma enfermeira que com passos tímidos aparece no corredor, se aproxima deles e lhes diz: “Sinto muito, mas ele não resistiu a última cirurgia. Ele veio a óbito”.

            O pranto então explodiu no peito de todos. Todos como se não acreditassem no que a enfermeira havia dito, dispararam em direção ao centro cirúrgico. Precisavam ver para crer. A final após tantas contradições era possível que a notícia fosse falsa. Era até mesmo possível que a enfermeira tivesse se confundido e houvesse dado a notícia para a família errada. Talvez não fosse Daniel.

            Mas foi então que um dos tios de Daniel, invadindo o centro cirúrgico viu. Era ele. Era Daniel. E eles às pressas estavam embrulhando seu corpo em um grande saco plástico etiquetado para o necrotério do hospital. “Naquilo que agente queria que eles estivessem errados, eles estavam certos, sim meu sobrinho está morto. Mas naquilo em que agente queria que eles acertassem, eles erraram”, gritou o pobre tio de Daniel enquanto se abraçava ao resto de sua família.

            Pela manhã, o corpo de Daniel foi levado para o Instituo Médico Legal (IML), a fim de ser submetido a uma autópsia, onde segundo o próprio parecer do médico legista a causa da morte do rapaz deu-se por causa da infecção generalizada. Contudo, o médico mostrou-se chocado ao perceber que o avanço dessa infecção deu-se devido a um pequeno ferimento. Ferimento este que, segundo ele, poderia ter sido curado e remediado de forma mais responsável. “Como médicos podem deixar que um ferimento infeccione dessa forma, e o que é pior, deixem que uma infecção avance sem controle adequado?” perguntava-se o médico legista enquanto despachava o corpo de Daniel para seus entes queridos.

            E embora ele não manifestasse sua opinião abertamente, ele pôde entrever nos olhos de todos, que foram buscar o corpo de Daniel, um lampejo de decepção e revolta pelo tratamento médico dispensado a Daniel.

P.S.: Este relato fidedigno dos fatos só foi possível graças a entrevista da prima de Daniel, Ana Carolina Dias Ferreira (20), que foi testemunhar ocular de todos os fatos aqui narrados.

É importante ressaltar que o tratamento médico nos Socorrões I e II da cidade de São Luís, é sem dúvida de vital importância para os casos de primeiros socorros e que muitos profissionais ali desempenham seu trabalho com muita humanidade e profissionalismo. Todavia, percebe-se muitos casos em que alguns destes profissionais por um motivo ou outro deixam muito a desejar, sobretudo no que tange a solidariedade, humanismo e amor ao próximo. Um médico, por exemplo, é um salva-vidas literalmente, e por isso mesmo precisa doar-se de corpo e alma para seu paciente, sem se importa com seus honorários. Uma enfermeira,é um bálsamo para as dores, feridas e sofrimento de um paciente, e por isso deve está sempre disposta a ser isso. Nisso reside a sua dignidade enquanto profissional.

O caso de Daniel, não é um caso isolado, ele vem acontecendo diariamente nos grandes hospitais de São Luís e do Brasil como um todo. Perguntem-se: médicos que não são capazes de ler um exame de Raios-X? Médicos que a despeito de sinais graves de infecção permanecem impassíveis? Médicos que optam por um tratamento paliativo e não curativo? Médicos indispostos? Enfermeiras indiferentes? Médicos propensos a remediar somente em último caso? Uma infecção que menos de uma semana levou a vida de um rapaz saudável de 19 anos? Diagnósticos contraditórios? Antibióticos impotentes?

Como sou apenas jornalista posso apenas fazer estas indagações, mas acredito que para respondê-las seria preciso requerer um inquérito, e este direito cabe apenas à família de Daniel.

Deixo, contudo, um alerta: a negligência médica custa caro, custa uma vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s