A lenda do Bumba-meu-boi

     O folclore maranhense, um dos mais expressivos do Brasil, está quase que intrinsecado na vida dos maranhenses, que sempre têm um modo peculiar de explicarem alguns fatos, mistérios e fenômenos da natureza. Talvez por isso, o Maranhão tenha muitas lendas e que buscam sempre explicar a origem de alguns dos mais  misteriosos fatos e que ao longo do tempo se perpetuaram. É assim, por exemplo que, segundo reza a lenda, a praia do olho d’água, uma das mais belas de São Luís, originou-se das lágrimas de uma india enamorada por um português e que foi raptado por Iemanjá. De fato, nessa praia existem 3 pequenos riachos que correm para o mar e que muitos acreditam serem as lágrimas da india que morreu de desgosto e de tanto chorar ali naquele lugar. E quando você pergunta, por exemplo, por que embaixo do centro histórico de São Luís existem galerias subterrâneas, muitos irão dizer que foi uma serpente gigantesca que as cavou e que ano após ano cresce adormecida, e que caso esta venha despertar, poderá afundar a ilha de São Luís.

     Talvez estas lendas à primeira vista possam parecer absurdas, mas uma delas, a do bumba-meu-boi, possa ter algum fundo de verdade. Reza a lenda ou história, que um casal de escravos chamados Francisco e Catirina viviam em uma bela fazenda, onde trabalhavam para o seu Senhor. Ele capataz, e ela cozinheira.

     O casal de escravos, apesar da dura vida de escravidão, eram bem tratados pelo seu Senhor e na vida modéstia que levavam acalentavam o sonho de terem um filho. De fato, passado algum tempo Catirina engravidou, e Francisco, cheio de felicidade, era todo cheio de cuidados e atenção para com a mulher, até que esta começou a sentir fortes e estranhos desejos. Uma ora ela desejava comer pombos fritos, outra hora queria comer as vísceras de uma galinha ou ovos desta que ainda se encontravam em fase de germinação. Tudo isso na calada da noite, e Francisco corria atrás de satisfazer os desejos da mulher, uma vez que esta, sempre entre lágrimas, implorava que ele realizasse seu desejo.

     Com o tempo, os desejos de Catirina tornaram-se cada vez mais veementes e difíceis de satisfazer, até que certo dia ela desejou comer a lingua do boi de estimação de seu senhor. Francisco então se desesperou, por que não tinha coragem de matar o  novilho mais precioso de toda a fazenda. Contudo, dia após dia, Catirina chorou, amargurou-se até que começou a dá sinais de que adoecia,  tal era seu desejo. Francisco então, temendo que a mulher piorasse ou mesmo que algo de muito ruim acontecesse ao seu filho, cedeu.

     Assim, certa madrugada, roubou o novilho de estimação de seu senhor. Logo depois, cortou-lhe a língua e a oferceu a sua mulher. Esta cheia de felicidade e cheia de avidez foi  cozinhar uma parte e fritar a outra, e saciando tão ardente desejo  devorou a iguaria em um piscar de olhos.

           Mas enquanto Catirina saciava seu desejo, Francisco tratava de esconder o cadáver do novinho, pois sabia que seriam duramente castigados por terem cometido tamanho delito.

     Assim, na manhã seguinte o fazendeiro, que todo os dias corria para ir ver seu novilho predileto, ao sentir falta deste e após perambular por toda a fazenda, resolveu chamar Francisco. Perguntou, gritou e exasperou-se dizendo que exigia que Francisco desse conta de onde estava seu novilho de estimação, pois este era o respónsável por ele. Por fim o ameaçou de que caso seu novilho não fosse encontrado, Francisco iria parar no pelourinho, onde iria sofrer duros castigos pelos quais iria se lembrar pelo resto de sua vida.

     Francisco então desesperado correu para junto de Catirina, e após contar-lhe o que havia se passado, ambos resolveram fugir da fazenda. E como não tinham a quem recorrer para pedirem ajuda, foram se refugiar em uma tribo de indios que viviam ali perto.

     O fazendeiro ao se inteirar disso, enfureceu-se pois diante disso constatava que Francisco havia roubado seu novilho. Assim, deliberou junto com seus vaqueiros mais valentes irem no encalço de Francisco e Catirina.

   O casal de escravos entre lágrimas, e totalmente desesperados junto dos indíos, sabiam que ali iria acontecer uma veradeira batalha, caso o novilho não fosse encontrado e devolvido ao fazendeiro. Mas como fazê-lo, uma vez que o boi estava morto?

     Catirina então, sentindo-se culpada por ter desejado comer a língua justamente do boi de estimação de seu senhor, foi pedi ajuda ao Pajé da tribo ,e  após contar-lhe o que havia acontecido, o sábio feiticeiro,  consultou seus oráculos, e mandou que Francisco fosse buscar o cadáver do novilho.

     Francisco sem pestanejar o obedeceu. Enquanto isso, o cacique da tribo, a fim de ganhar um pouco de tempo, enviou algumas formosas indias para irem ao encontro dos vaqueiros que caçavam o casal de escravos.  Os vaqueiros ao  avistarem tão belas mulheres, ficaram deslumbrados e logo confabularam que bem poderiam gozar de alguns momentos de prazer e felicidade junto daquelas mulheres. E assim fizeram.

    Nesse meio tempo Francisco chegava com o cadáver do novilho junto do Pajé, que nesse ínterim havia preparado um ritual, onde toda a aldeia deveria comparecer. E ali ele, o pajé, os indios, indias e até mesmo o casal de escravos começaram a invocar os espíritos e deuses que habitavam a floresta, senhorres dos elementos e da natureza, para que dessem vida novamente aquele novilho. E ali no meio de uma dança ritualística, estes espeíritos e deuses se corporificaram e penalizandam-se com a causa de Catirina e Francisco deram vida novamente ao novilho. Este ao ressucitar, parecendo gente que aprecia música, deixou-se encantar pelo ritmo dos tambores e dos maracás  e começou a dançar ou bumbar.

    Nesse momento, o fazendeiro junto com seus vaqueiros chagavam na aldeia e estes vendo o novilho bumbar no meio dos indios, ficaram boquiabertos de admiração.

     O Fazendeiro mais do que admirado, estava feliz por ter reencontrado seu estimado novilho, e este vendo seu amo se aproximar, e sempre dançando convidou-o para entrar na roda da dança. O fazendeiro então vendo Catirina e Francisco ali ajoelhados, se aproximou e pediu para que eles se levantassem e ao lado deles entrou na dança para dançarem junto com seu novilho encantado. Logo depois, os vaqueiros e todos os indios e indias se juntaram ao grupo e daçaram todos em volta do boi.

      E nesse cortejo de dança,  o boi é reconduzido de volta para sua fazenda. E desde então o fazendeiro, todas as noites de São João ia convidar os indios e seus vaqueiros , assim como Catirina e Francisco para irem dançar junto com seu novilho encantado. E a notícia de que havia no Maranhão um mimoso boi que bumbava ao som de tambores e maracás se espalhou, e todos vinham ver esta maravilha, e aqueles que não podiam vir, o boizinho junto com seus vaqueiros, indios e indias, Catirina e Francisco e seu amo, iam até estes em verdadeiras excursões e folguedos.

     E foi assim que nasceu a maravilhosa dança do Bumba-meu-boi, uma das mais  belas e expressivas do folclore maranhense.

Personagens do bumba-meu-boi:

Caboclo de penas; espírito-deus protetor da floresta e da natureza. Invocado para ressucitar o boi.

O Cazumbá; espírito-deus protetor dos animais. Co-autor da ressureição do boi.

Vaqueiros campeadores; a escolta do fazendeiro.

Vaqueiros de fitas; a escolta do boi.

Indias; guias de Francisco e Catirina pela selva. Sedutoras dos vaqueiros.

Indios guerreiros ao lado do Pajé; responsáveis pelo ritual de ressureição do boi.

O fazendeiro; o amo do boi.

Francisco e Catirina; os escravos raptores do boi.

O boi; ressucitado e encantado.


                                                                                                                                                      

 

                                                                                            

                                                               


                                                                            


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