Levada por minha constante curiosidade em desvendar o oculto e mistérios que ainda se encerram no passado das grandes civilizações acabei me deparando com o Livro de Mórmon e sua narrativa sobre as origens das grandes civilizações que habitaram na Mesoamérica.

O que é realmente instigante no livro de Mórmon é que ele nos conta que a partir de uma família de judeus refugiados na época em que o reino de Judá caia nas mãos dos Babilônios, após terem recebido uma instrução divina, deixaram o oriente médio, empreenderam uma grande viagem até então inédita para todo e qualquer povo daquela época e, atravessando o grande oceano pacífico aportaram nas Américas. Uma vez que chegaram no continente, após começar a se multiplicarem começou a haver dissidências entre eles por ordem religiosa e civis, o que contribuiu para que o povo se divide-se em dois: os nefitas e os lamanitas e que desde então viveram em constantes guerras, onde hora os nefitas sobrepujavam aos lamanitas, e ora os lamanitas venciam os nefitas obrigando-os a sempre mudarem-se das regiões em que então habitavam, abandonando suas cidades e campos de cultivo e produções por medo da escravidão.

Todavia, no decorrer da narrativa do livro percebe-se certos anacronismos que aos olhos de um leitor mais acurado não podem passar despercebidos tais como, a existências de rebanhos de bois e cavalos no continente americano quando então o povo de Néfi aqui chegou, quando na verdade esses animais foram introduzidos no continente americano com a chegada dos espanhóis. Outro ponto a ser levado em consideração é a própria língua então falada por esse povo. Ora se eles eram refugiados do Reino de Judá, naturalmente que deveriam falar, assim como todos os judeus daquela época, o hebraico ou mesmo o aramaico, e em nenhuma das pesquisas arqueológicas feitas na Mesoamérica foram encontradas qualquer indício dessa escrita ou mesmo cultura. E esse fato é extremamente curioso, por que os judeus em todas as épocas em que sofreram dispersão ou perseguição, sempre foi um povo admirado por conta da preservação de suas raízes étnicas e culturais mesmo diante das mais piores adversidades. Então por que ao longo dos séculos em que o povo de Néfi deixaria seus costumes de lado ou mesmo esqueceriam seu próprio idioma? O Livro de Mórmon cita que por conta de suas transgressões os lamanitas foram sentenciados com uma maldição tornando-se de pele escura, tais como todos os demais povos que então de fato habitaram a América tais como os astecas, olmecas, mais, incas e etc. O livro afirma também que o povo lamanita se degenerou, o que implica afirmar que abandonaram todos seus costumes e tradições culturais, inclusive a língua hebraica. Contudo, a ausência dessas evidências lança dúvidas sobre a veracidade dessa narrativa.

De fato durante toda a narrativa fala-se da construção de grandes cidades e da destruição delas por conta das constantes guerras entre esses dois povos ou até mesmo por conta de catástrofes naturais tais como terremotos, inundações, erupções vulcânicas ou mesmo abandono de cidades. Mas onde estão as ruínas afinal dessas civilizações? Onde estão os indícios e elos que poderiam afirmar, por exemplo, que os astecas são descendentes dos lamanitas?  A arqueologia, assim como a própria História necessita de elementos comprobatórios para que possa afirmar que tal povo habitou ou fez isto ou aquilo em determinada época e essas provas podem ser as mais diversas desde textos antigos e incontestáveis e por fim ruínas. E até o presente momento o que foi provado pela arqueologia foram povos tribais com língua própria e costumes impares que aqui habitaram.

Outro ponto controverso no livro é a questão do monoteísmo, pois em todos os estudos arqueológicos feito na Mesoamérica jamais se encontrou indícios de culto a um só deus, dentre todos os povos das Américas. Além disso, o autor do livro utiliza de termos e palavras tais como Igreja, e Cristo com a mesma familiaridade como se as tivesse apreendido em uma escola grega, pois tais palavras são do idioma grego e como poderiam ser empregadas em um idioma indígena que não está muito bem definido qual seria no próprio livro de Mórmon?

Não pretendo entrar no ramo da Teologia contida no livro de Mórmon para não ferir sentimentos religiosos de teor cristão, e me limito em apenas ao ramo da Arqueologia e História justamente por que são estas as ciências que exigem provas da existência de tais povos e quebram paredes impostas pela fé. Pois se analisarmos a Bíblia, por exemplo, que é um livro religioso e que nos fala de coisas misteriosas e que desafiam a ciência, ela, contudo, não deixa margem no que tange a veracidade de suas narrativas históricas por que ela cita nomes, episódios, lugares e até mesmo eventos que podem ser facilmente encontrados em outras fontes e por elas comprovados.

O livro de Mórmon afirma que o povo de Néfi, que era de pele clara e o escolhido por Deus, foi destruído pelos selvagens lamanitas e que o livro que então foi compilado a partir de placas de ouro e latão pelos chefes e família de sacerdotes ao longo dos anos, foi escondido até que foi encontrado por Joseph Smith Jr, que por meio do Espírito Santo, conseguiu traduzi-los para o inglês. Contudo, tais placas de acordo com o próprio Joseph Smith Jr. foram recolhidas por Deus que lhe mostrou para que ele apenas pudesse traduzi-las, e que nos deparamos novamente com uma nova lacuna deixada pelo Livro de Mórmon.

Reafirmo que não pretendo derrubar a veracidade ou não livro de Mórmon ou que ele deva ser ou não aceito como um livro assim como a Bíblia, um livro inspirado por Deus, mas sim que tais lacunas fossem respondidas por aqueles que o defenden. O povo de Néfi, mesmo que tenha sido destruído, de acordo com o próprio Livro de Mórmon habitou na Mesoamérica por mais de 800 anos e deveria existir algo sobre sua passagem pela América, inclusive na memória cultura dos demais povos que então continuaram a existir no continente. Que as respostas levantadas pela minha curiosidade sejam respondidas pelos adeptos do Livro de Mórmon.