Este é um tema que vem ganhando espaço no debate público onde diversas instituições tem se posicionado tecendo não apenas suas opiniões sobre o assunto, mas também demonstrando que uma nova reconfiguração social está sendo construída. Embora dentro do próprio movimento LGBT não exista unanimidade sobre o que é ideologia de gênero, o fato é que a questão das identidades de gêneros que até então eram formuladas pela sociedade heteronormativa estão sendo desafiadas para que atendam as reivindicações de uma parcela da população que quer ser reconhecida e co-participar como indivíduos de uma mesma sociedade.

O problema é que o assunto ultrapassa até mesmo questões como a transexualidade, que até pouco tempo ainda era classificada como doença. Mas afinal o que é ideologia de gênero? De acordo com a filósofa Judith Butler gênero e sexo são coisas completamente distintas e afirma que, em nossa sociedade estamos diante de uma “ordem compulsória” que exige a coerência total entre um sexo, um gênero e um desejo/prática que são obrigatoriamente heterossexuais.

Para Butler essa compulsividade sobre o sexo aprisiona o gênero e o os grupos de pessoas que não se adequam como é o caso das pessoas transexuais, tendem a serem excluídas porque são enxergadas como pessoas que pretendem subverter a ordem estabelecida pela heteronormatividade que estabelece a relação: pênis x vagina, macho x fêmea.

            Mas, Butler não foi a pioneira em assuntos que pretendiam lançar um novo olhar sobre a questão dos gêneros. Michel Foucault também polemizou a questão quando afirmou que o gênero não é algo inato no ser humano, mas que é apreendido pelo indivíduo por meio da educação formal dos pais e demais instituições de influência cultural, religiosa e até política que engendram a sociedade.

           O movimento LGBT tem também se dividido diante desse tema porque mesmo entre homossexuais e transexuais, muitos ainda demonstram certa resistência quando se deparam com essas questões porque subentende-se que orientação sexual e identidade de gênero são coisas distintas. Assim, por exemplo, um homem que nasceu homem (biologicamente falando porque nasceu com um pênis) pode se sentir ou se identificar como uma mulher,  e assim ele acaba sendo classificado como uma mulher transexual, e se ela se sente atraída sexualmente por homens, então ela será encarada como uma mulher transexual hetero.

            Mas a questão se complica quando esse binarismo novamente é desafiado, já que a teoria queer, principal ideia defendida por Judith Butler, vem justamente subverter esse binarismo e assim abre vertentes e novas possibilidades ao indivíduo que pode e deve ser livre para escolher seu próprio gênero ou até mesmo viver sem rótulos quando este mesmo indivíduo não se identifica nem como homem e nem como mulher.

            É nesse contexto que a tal ideologia de gênero tem sido encarada de forma negativa por muitas instituições, sobretudo, as religiosas e até mesmo pessoas que entendem que trata-se de uma subversão da ordem estabelecida.  O problema é que os argumentos contrários acabam sendo um tanto quanto genéricos e associam alguns tipos de transtornos mentais e de disforia de gênero para englobar justamente a ideologia de gênero.

            Em um seminário sobre esse tema Julian Ferron, autora do livro cansei de ser gay afirmou que a ideologia de gênero tem como propósito a desconstrução da família, por que ela vem justamente lançar uma nova reconfiguração social naquilo que tange os papeis esperados de um homem e de uma mulher. Julian Ferron também destaca que novos conceitos e nomenclaturas estão sendo lançadas a partir dessa ideologia tais como mulher cisgênero, mulher transexual, homem transexual e etc. Embora Juliana Ferron tenha como foco principal o argumento religioso sobre a inversão de papeis pré-estabelecidos por uma natureza divina, percebe-se claramente a confusão feita durante um de seus seminários em São Luís-MA em não conseguir desassociar a transexualidade de outros tipos de transtornos mentais que de fato podem influenciar e impactar a vida sexual de um determinado indivíduo como, por exemplo, as parafilias, que de acordo com a OMS são classificadas como doenças mentais.

            O assunto é não só polêmico, como também instigante por que nos leva a uma reflexão profunda de nós mesmo e de como somos vistos pela sociedade e neste palco é muito comum que haja o confronto de ideias, dai o nome Ideologia. Contudo, a questão precisa ser analisada por meio da ótica da ciência já que se trata de um comportamento humano e de uma construção de uma identidade que comprovadamente é feita desde a infância. Portanto, é no campo da pesquisa, da observação e da experimentação que se poderá lançar uma luz mais profunda sobre as questões de gênero.