A mídia tem proporcionando um amplo debate sobre temas como a transexualidade e identidade de gênero de crianças e adolescentes, e isso tem feito com que muitas pessoas se posicionassem sobre o assunto. Contudo, é preciso levar-se em conta que o assunto tem se tornado bem mais complexo porque toca em um tema desconcertante que muitas das vezes o movimento LGBT não aceita como terminologia. Trata-se da Ideologia de gênero. O movimento LGBT tem se esforçado para mostrar que o termo é inapropriado porque afirma que questões de gênero não podem ser encaradas como uma ideologia porque o conceito de ideologia afirma que se quer doutrinar uma pessoa a partir de um conjunto de ideias que defendem uma causa.

   De acordo com a professora Maira Zapater, o tema deve ser abordado como Teorias de gênero e defende a assertiva de que “assim como a natureza está para a cultura, o sexo está para o gênero”.  “Esse é o embate fundamental: afirmar que o que se considera “ser homem”/ “ser mulher” (e todos os desdobramentos relativos a orientação sexual e performance de gênero) é uma construção cultural e não uma determinação da natureza, implica que as certezas que se têm a respeito de tais definições não são tão certas nem tão definidas”, afirma.

   Mas, uma das maiores polêmicas sobre este tema não está na questão se tais teorias deveriam ou não ser ensinada nas escolas e para crianças e adolescentes, mas sim no que diz respeito ao não binarismo dos gêneros.      Existem pessoas que se auto intitulam não binárias, ou seja, não se consideram nem homens e nem mulheres. E por que sentem essa incongruência de gênero? Ainda de acordo com essas mesmas pessoas, elas não se sentem contempladas diante de suas próprias experiências com as coisas consideradas masculinas ou femininas. Então justamente esse desconforto acaba gerando essa incongruência e optam por não aceitar o tradicional binarismo dos gêneros que classifica que existem apenas dois gêneros; masculino e feminino.

   Então o advento desse não binarismo surge apoiado por teorias que pretende subverter a ordem atual de classificação dos gêneros, lançando assim um desafio para questões que a própria ciência vem se debruçando anos a fio como campo de pesquisa tais como transexualidade, orientação sexual, homossexualidade e bissexualidade.

   O assunto é controverso porque divide opiniões até mesmo dentro do próprio movimento LGBT já que não existe consenso em aceitar pessoas com identidade de gênero não binária como membros de uma mesma causa. De fato a própria sigla que representa o movimento vem sendo discutida se deverá ou não adotar a letra Q (queer) como forma de representatividade dessa categoria. O problema está em ajustar e aceitar as próprias incongruências lançadas por esse não binarismo. Por conta disso uma pessoa não binária, desperta uma certa esquisitice nas pessoas binárias, porque justamente não conseguem compreender a grande diferença que as separa.

   Contudo, ao entrevistar uma pessoa não binária chamada Cris que ao ser questionada sobre o tema, deixou a entender que a orientação sexual de uma pessoa não binária não é um campo fechado como, por exemplo, de um homem homossexual. Um homem homossexual seria então classificado dessa forma: Homem (cisgênero), homossexual (orientação sexual), identidade de gênero masculina. Cris lança um sorriso sarcástico quando afirma que sua orientação sexual está na linha cinza da sexualidade e destaca que é capaz de se relacionar tanto com homens como mulheres. Ela também afirma que ao se ver no espelho não consegue se enxergar nem como homem e nem como mulher, embora esteja fazendo uso de hormônios masculinos para manter uma aparência mais masculina que feminina.

   Quando questionada sobre isso, Cris afirma que optou pela aparência masculina apenas por questões de estética e que encontrou em um corpo masculino uma zona de conforto e de liberdade que o corpo feminino não lhe proporcionava.

   Ela também prefere ser chamada pelo nome de Cris porque é um nome assexuado, mas fica sem resposta quando o assunto é lavado para o campo das nomenclaturas que tratam as coisas e os indivíduos por dois gêneros: masculino ou feminino. Questionei por exemplo se Cris usa termos; eu estou atrasada! Eu estou nervosa, apreensiva. Sem poder responder de forma objetiva, Cris fala que a escolha com quem vai se relacionar nunca está ligada ao sexo (biológico) ou na identidade de gênero ao qual essa determinada pessoa pertence, porque ela gosta de pessoas independente disso, mas fica rubra quando destaco as peculiaridades físicas que nos levam a nos sentir atraídas sexualmente por um certo biotipo de pessoa. É justamente nessas peculiaridades que o não binarismo acaba não se sustentando e tendo uma base frágil porque quando se fala de orientação sexual são justamente estas peculiaridades que fazem toda a diferença entre heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade.

   Se o assunto tem dividido o próprio movimento LGBT, imagina a própria sociedade heteronormativa que encara o não binarismo como uma teoria subversiva e até mesmo cômica porque acaba trazendo descrédito as lutas do movimento LGBT. De fato, se o indivíduo não sabe se ele é homem ou mulher e que por conta disso ele pode deve e ficará transitando entre esses dois pólos, isso demonstra que existe uma incongruência de gênero, uma disforia de gênero e isso para desconforto muitos, será encarado como um transtorno.

   O perigo da teoria do não binarismo, contudo, vai além de uma mera classificação do que venha a ser masculino e feminino, mas sim uma negação absurda de um conjunto cognitivo que foi criado por uma sociedade heteronormativa. Partindo dessa premissiva as pessoas “queer” negam não só essas normas e nomenclaturas, como também pretendem exigir serem vistas, observadas, encaradas e tratadas de uma forma também diferenciada. Dessa forma pretende-se que uma nova reconfiguração seja implantada no seio da sociedade e que rótulos sejam banidos para que não se exclua nenhum dos indivíduos ou atores sociais.