Com o advento da internet as relações interpessoais têm se modificado no que tange a forma ou os modos operantes de se abordar uma pessoa para que se possa estabelecer uma nova amizade, uma paquera e até mesmo uma aventura sexual. Os diversos canais existentes no mundo virtual para que isso ocorra possibilitam não apenas que os usuários possam interagir com desconhecidos nos mais diversos pontos do mundo, como também possibilitam certo anonimato a certos perfis de pessoas que por um motivo ou outro não podem assumir seus reais desejos sexuais diante de amigos e familiares.

     Esses tipos então recorrem à internet, sobretudo às redes sociais para que possam dar vazão aos seus desejos contidos, reprimidos e encarados como obscuros diante da sociedade. Isso por que, o medo de serem descobertos e flagrados os empurra para uma janela virtual, por que é ali que eles em apenas um clique podem vivenciar um pouco daquilo que lhes é negado na sociedade, e é ali também que com um apenas um clique eles podem dissolver tudo. Um sujeito, por exemplo, que sofre de zoofilia, certamente que encontrará dificuldades para saciar seu desejo sexual em seu cotidiano, já que diante da sociedade ele será encarado como um anormal, sobretudo, na zona urbana, já que é nesse meio onde as pessoas quanto mais esclarecidas, mas julgadoras elas se tornam.  Dessa forma ele acaba recorrendo a canais na internet para que possa tentar saciar um pouco esse seu desejo ou até mesmo colocá-lo em prática.

     Seguindo esse mesmo critério, um homem que tenha desejos de transar com uma transexual ou travesti, mas que não queira adentrar ao mundo da prostituição acaba também recorrendo ao mundo virtual em sites de relacionamentos ou redes sociais, chat e etc, onde por trás de um escudo de um computador ou mesmo um Smartphone, ele por alguns momentos deixa a máscara cair e deixa de ser um sujeito puramente ou meramente heterossexual. Tudo por que ali ele está protegido, intocável por uma vã ilusão que o que é conversado e extravasado ali pode ser dissolvido com um clique. Ali no mundo virtual ele pode ser ele mesmo por um breve momento, ainda que muitas das vezes tenha que criar um personagem para isso ou um avatar sempre tentando se proteger por que, ali ele também é consciente que pode encontrar pessoas que o reconheçam ou que pertençam ao seu próprio mundo.

     Esse fenômeno social tem contribuído sem dúvida para que as fronteiras entre a diversidade sexual se torne cada vez mais ambígua, porque um rapaz que se considera heterossexual e assuma isso diante da sociedade, possa de repente receber elogios de um homem nas redes sociais e a partir da aí ter contato com imagens que possam suscitar sua libido, onde de forma quase que inconsciente ele dar margem aos seus desejos homossexuais incontidos e reprimidos. Uma vez despertados tais desejos, com ele vem também o sentimento de culpa e medo de ser taxado como gay e por conta disso volta a reprimir tais desejos, embora não consiga silenciá-los por muito tempo. Assim, sempre que sente tais desejos ele sabe que será na internet que ele poderá paquerar ou se deixar paquerar por um homem e  depois tentar manter ou ter uma relação sexual.

     Mas esse jogo de esconde-esconde não é jogado apenas por uma pessoa e sim por duas ou mais, e isso sempre acaba gerando conflitos entre ambas as partes (heterossexual mal resolvido x homossexual assumido, homem cisgênero heterossexual x transexual e etc). Por que enquanto uma transexual que não precisa usar máscaras ou meios subterfúgios para vivenciar sua própria sexualidade, e  um homem heterossexual que esteja sentindo-se inclinado a ter uma experiência sexual diferente ou simplesmente porque esteja sentindo-se atraído por ela naquele momento e tendo aí despertado sua libido, ele dificilmente será de todo verdadeiro com ela em sua conversa e pretensões, por que o que prevalece é sempre sua própria zona de conforto e que jamais poderá ser modificada ou atingida. Nesse contexto, pessoas deixam de ser pessoas para se tornarem objetos sexuais e até mesmo meras imagens em vídeos e fotografias, pois o que ali importa já não é a pessoa em si ( sua personalidade, seu caráter, qualidades e etc), mas seu corpo, porque é nele que reside o objeto daquele prazer proibido.

     Outro ponto a ser destacado é que muitos ainda mais temerosos de serem vistos até mesmo por eles próprios como homossexuais, jamais colocam em prática esses desejos e se eximem de terem um encontro real, preferindo antes à pratica do sexo virtual, por que uma vez mais seu subconsciente afirma que tudo foi dissolvido com o clique de um encerramento de uma conversa por exemplo, via whatsapp, facebook e demais sites de relacionamento. Já outros acostumados em sua zona de conforto sempre recorrem ao mundo virtual para pescarem e caçarem uma nova aventura sexual, porque ali não só é mais fácil dar e receber uma cantada em um homem desconhecido, como também o repúdio às vezes recebido é desassociado de uma violência física ou mesmo um escândalo colocando em risco não apenas sua integridade física como também sua própria identidade sexual.

     Mas, se o mundo virtual propicia essa liberdade para àqueles que precisam ficar no anonimato para poder vivenciarem seus reais desejos sexuais, estes também não podem se esquecer daqueles que já ultrapassaram ou nunca precisaram viver em tal fase da vida, porque quando essas duas partes se encontram nas redes sociais, o conflito é quase sempre iminente. Isso porque as exigências de um e de outro quase sempre são diferenciadas até mesmo na forma da abordagem de uma simples conversa e isso se torna ainda mais complexo quando se trata de querer ter um encontro pessoal. A saída para se evitar esse conflito é sempre dialogar por meio da sinceridade, deixando claro sempre quais são as referidas pretensões a serem estabelecidas a partir daquele contato, porque se o medo de ser taxado como gay é algo exorbitante para muitos, o medo de se tornar vítima de algum tipo de crime também é algo muito comum para quem se aventura em sites de relacionamentos. Portanto, avatares, podem até existirem. Mas dede que usem faces e corpos de pessoas verdadeiras e que a mentira se não pode ser de toda evitada durante o diálogo, pelo menos ela possa ser evitada no que diz respeito das reais pretensões quer seja para um encontro pessoal ou meramente um sexo virtual.