A dependência química é um dos grandes males que vem desafiando a vida de muitas pessoas, sobretudo, de jovens e adolescentes. Embora essa dependência já tenha sido classificada como uma doença, o fato é que os fatores que arrastam uma pessoa a se tornar um dependente químico ainda são muito controversos entre si, porque cada caso específico carrega consigo problemas psicológicos ou mesmo psicossociais.  Muitos dependentes químicos alegam que começaram a fazer uso de drogas ao se sentirem  fragilizados diante de grandes desilusões, decepções, frustrações ou mesmo perdas. Outros que simplesmente se deixaram guiar pela curiosidade e busca de novos prazeres.

O grande problema é que ninguém jamais começa a usar droga para se tornar um viciado. A pessoa sempre se engana dizendo a si próprio que terá autocontrole e que o que está fazendo é apenas tentando fugir um pouco de sua própria realidade ( no caso de pessoas depressivas) ou intensificando suas formas de prazer. A história que eu vos passo a contar é um retrato de como a droga seduz, como ela escraviza e destrói uma vida. Em setembro de 2018, conheci um rapaz de 21 anos de idade e que irei chamar de R. Um jovem robusto, porte atlético, moreno e de uma beleza encantadora. Ao longo de muitas conversas ele começou a me falar sobre sua vida, e claro, sobre suas frustrações e perdas. Filho de pais separados, ele fora testemunha de inúmeras brigas violentas entre seus pais e embora fosse ainda muito pequeno tentava encontrar apoio em seu irmão que era um pouco mais velho, sempre que essas brigas aconteciam. As brigas continuaram e a mãe temendo sofrer agressões piores ou até mesmo a morte, fugiu abandonando os próprios filhos, deixando-os na casa dos vizinhos. Foi um duro golpe para R. Ele jamais esqueceria essa cena e jamais entenderia as reais razões que sua mãe em desespero tivera que deixá-lo para trás nas mãos de um pai severo.

Com o passar do tempo R, começou a nutrir uma espécie de amargura e rancor pela própria mãe, enquanto que ele via seu pai, já casado com outra mulher e reconstruindo uma nova família e com outros filhos. A mãe reaparece após algum tempo, tenta reaproximação e naturalmente que é rejeitada. Mas ele insiste nessa reaproximação e R tentando se reconciliar aceita suas visitas e passeios, embora ele não conseguisse sentir mais aquela mulher como sua mãe. E assim R viveu toda sua infância, entre uma casa e outra, onde ora ele ouvia seu pai lançando injurias contra sua mãe e ora ele ouvia a mãe queixando-se do pai. Quando então já eram adolescentes, R e seu irmão criaram uma espécie de simbiose, porque não só gostam da presença um do outro como também eram cúmplices de tudo o que faziam. Vieram as primeiras paixonites, os primeiros amores, as primeiras experiências sexuais, os primeiros trabalhos, as aventuras e problemas oriundos da adolescência.

A mãe de R, que também já estava casada com outro homem, também passou a requerer a convivência com seus filhos e por conta disso, R e seu irmão passavam ora uma temporada com o pai e outra com a mãe. Mas R, não conseguia se situar nem com um e nem com outro. Era um estranho para as duas famílias novas que tinham sido constituídas. Apenas seu irmão lhe era familiar, seu ponto de apoio, sua referência. Mas o irmão de R, desenvolveu uma ambição precoce por dinheiro, e sendo eles de família humilde, ele então começou a esquematizar que poderia ganhar algum dinheiro na prostituição com gays ( ele teria escolhido a classe dos gays, justamente porque concebeu que era uma classe vulnerável e carente de afeições e muito sedenta por sexo, e isso facilitaria para que pagassem por aquilo que não tinham). O irmão de R não só começou a se prostituir como também o influenciou a fazer o mesmo. Logo vieram as primeiras satisfações pessoais oriundos da prostituição, pois começaram a ostentar celulares, roupas, calçados, presentes para namoradas e dinheiro no bolso para festas. Foi nesse meio tempo que o irmão de R também começou a fazer uso de maconha porque todos os garotos que ele conhecia até então também usam e comentavam que a erva lhes deixava mais relaxados, mais espertos, com mais vigor e até mesmo mais inteligentes. Outros diziam que ela tinha ingredientes medicinais e que mais cedo ou mais tarde seria liberado seu uso. O irmão de R então fez o mesmo discurso a ele que aceitou aquilo como verdade e mais uma vez imitou o irmão e passou a usar maconha.

Mas, R também tinha suas próprias predileções e nem sempre imitava o irmão em tudo. Durante o Ensino Médio, ele fez amizade com alguns rapazes de sua escola e que lhe apresentaram o Rock em especial o trash metal. Ele então passou a frequentar as reuniões desse grupo sempre que se encontravam em festas, bares ou mesmo em uma esquina, casas e praças. Nesses encontros o discurso sempre era música, a história do rock, os diferentes tipos de rock, as seitas, os pactos que algumas bandas faziam ou fizeram e etc. Tudo regado a álcool e maconha. O dinheiro da prostituição R passou então a gastar nessas festas e encontros.  Ele também teve várias namoradas, porque era um belo rapaz e facilmente atraia os olhares das garotas. Mas seus amores não duravam  porque as garotas com que ele se envolvia não conseguiam manterem-se fieis. R então sempre que tinha o coração partido procurava na música algum consolo e foi assim que passou a desenvolver certo talento musical ao compor e tocar violão.

As vezes o irmão de R aparecia com quantias de dinheiro cada vez maiores e R ficava curioso para saber o que ele fazia ou tinha feito para conseguir vultosas quantias e foi assim que R aprendeu também a roubar seus clientes ao seguir os conselhos do irmão. R também influenciado pela turma do rock passou a experimentar esporadicamente a cheirar cocaína, porque de acordo com seus amigos ela cortava os efeitos da embriaguez, da ressaca e mantinha a mente mais lúcida. R vem saber ou se dar conta estava sendo arrastado para dentro do mundo das drogas, porque nessa época ele fazia uso delas apenas quando estava em festas ou bebendo com os amigos do rock ou mesmo quando ia se prostituir.

Mas, uma fatalidade iria mudar a vida de R para sempre. Seu irmão, que era seu ponto de apoio e sua referência, foi brutalmente assassinado praticamente na porta de sua residência. A motivação do crime foi que ele estaria se envolvendo com a namorada de um traficante e que tomado de ciúmes resolveu mandar executá-lo. A família inteira ficou abalada e desestruturada com essa perda. Mas, para R foi a perda de seu eixo com a própria família. Pois não sentia o amor do pai, já que este tinha outros filhos e uma nova família, enquanto que a mãe ele não conseguia perdoar por tê-lo abandonado ainda pequeno.

R então completamente assolado pela dor de ter perdido seu irmão de uma forma tão brutal, procurou refúgio na música, no rock e nos amigos do rock. Mas ali ele também não encontrou conforto. Ele precisava se abstrair, fugir de seu mundo que simplesmente tinha desabado. Mas a maconha não conseguia lhe trazer essa alucinação de uma aparente sensação de fuga. Tentou recorrer a cocaína mas já não conseguia se prostituir sem a presença de seu irmão. Sem dinheiro para comprar algo mais refinado, ele então recorreu ao crack, porque justamente ouviu dizer que ele conseguia entorpecer a mente e que a pessoa “ viajava” para outra realidade. Era justamente o que R desejava.

Mas, o que R não esperava era que ao fazer uso do crack ele fosse se tornar um viciado, porque ele levou em consideração o fato de nunca ter se viciado na maconha e nem na cocaína. Esse foi seu erro.  Não só subestimou o poder viciante do crack, como também seu próprio estado psíquico que lhe deixou mais vulnerável ainda. Sim porque R, já não usava mais a droga apenas quando estava em uma festa. Agora ele precisava se esconder nos locais mais abjetos e na companhia de pessoas transloucadas. Essa era a forma que ele encontrou para fugir do mundo que ruiu, pois o que tinha sobrado para ele viver.

Seus pais enlutados com suas próprias dores acusavam-se mutuamente afirmando que o assassinato do filho tinha sido em parte por culpa um do outro ao negligenciarem a educação dada a ele, ou simplesmente por não terem acompanhado o que se passava com ele. E enquanto disputavam quem entre eles tinha razão, R se drogava dia após dia. Quando então se deram conta do que ele estava fazendo, alarmaram-se e rapidamente tentaram impedir que ele continuasse se drogando. A mãe recorreu a Igreja e o pai a uma clínica de recuperação. Mas R após dois meses simplesmente abandonou o tratamento dizendo para si mesmo que estava curado. A família acreditou e ele passou a morar com a mãe, porque nesse meio tempo em que estava se drogando passou a roubar o próprio pai quando então estava trabalhando com ele em seu pequeno empreendimento comercial.

A mãe tentou manter vigilância sobre ele, mas não conseguiu, porque R sempre conseguia dar suas escapadas para volta e meia usar crack junto com outras pessoas nas mais diversas partes da cidade onde chegava a passar dias e dias sem voltar para casa. Não sentia, fome, sede, cansaço ou mesmo sono. Sua única necessidade era fumar uma pedra de crack. A mãe desesperada trancava-o dentro de casa, chegando a acorrentá-lo muitas das vezes. Mas, o desespero de R por consumir o crack, era tão grande que ele, não só fugia de casa como simplesmente resolveu abandonar a família.

Meses se passaram e a família de R sem saber notícia alguma dele, já temia o pior. Vivendo nas ruas, R voltou também a se prostituir ou as vezes fazia alguns pequenos trabalhos como estivador a fim de ganhar alguns trocados para então comprar o crack que era então o seu combustível. Embora R passasse dias inteiros drogado, algumas vezes ele estava com a mente lúcida. Nessas oportunidades, ele dava-se conta que estava consumindo o lixo das drogas e que também estava se tornando um lixo. R tardiamente deu-se conta também que procurou o crack como um bálsamo para sua ferida, mas que agora ele o tinha escravizado.

Desejou voltar para casa, mas tinha vergonha do que tinha se tornado. Desejou voltar para o lar de seus pais sem saber ao certo quem o acolheria; sua mãe ou o seu pai. Seu sonho de tornar-se um músico e tocar em uma banda de rock, agora parecia sepultado. As pessoas com as quais ele tinha se relacionado, homens, mulheres e até seus amigos estavam todos distantes, porque não pertenciam mais ao seu mundo. R com os olhos cheios de lágrimas olhou para o céu, mas não conseguia mais crer em um Deus de amor e misericórdia. A filosofia satânica que tinham lhe ensinado no mundo do rock, agora reverberava dentro dele, onde ele simplesmente dizia a si próprio que não podia vencer o mal porque Deus era indiferente, que o mundo jazia nas mãos de Lúcifer e que era melhor se aliar a ele e sofrer menos que os outros. Era com tais pensamentos que R fumava seu cachimbo de crack, mesclando sua raiva, sua indignação, sua frustração, sua dor e seu medo.

Foi então que meu caminho se cruzou com o de R. Ao me dar conta de todos os teus problemas eu tentei ajudá-lo e minha primeira iniciativa foi reconduzi-lo para o seio de sua família e logo depois para um centro de   recuperação de dependentes químicos. R então tentando esboçar um sorriso condescendeu, mas com a condição que eu o acompanhasse de perto enquanto lutava pela sua reabilitação. Aceitei o desafio, mas também impus minhas regras onde nos 3 meses que ele passou tentando se curar, acabou infringindo todas elas.

Tentávamos ocupar a mente de R com coisas sadias; musica, família, passeios, namoro, igreja, diversões. Mas sempre vigilantes pois o medo era um fantasma constante. Mas R então quando conseguiu que déssemos uma pequena trégua a ele, não pensou duas vezes e voltou a usar drogas… Percorreu o mesmo caminho que já conhecia…. voltou a se encontrar com os velhos amigos do rock e lá encontrou a maconha. Mas ela já não lhe era suficiente. Seu apetite pedia algo mais forte: o crack. Voltou a furtar membros de sua família, amigos e até a namorada. Meteu-se em confusão por conta da droga, pois então vício voltou com força total e abandonou o tratamento e me alegou que a terapia era inútil, porque mesmo ele frequentando todos os dias o centro de terapia e tomando medicamentos que controlavam sua ansiedade e calmantes, ele sentia uma vontade incontrolável de fumar o crack.

Tentei persuadi-lo que ainda era cedo para afirmar que o tratamento era falho e ele deveria continuar, mas R foi inflexível. Ele não só abandonou o tratamento como mais uma vez fugiu de casa. A família encontra-se em desespero porque não apenas não sabe de seu paradeiro, como já não sabe o que fazer para ajudá-lo. A última vez que eu o vi, ele estava muito doente, abatido e cheirando mal. Perguntei onde e com ele estava vivendo, e ele apenas disse que estava com amigos vivendo por aí. Perguntei por seus sonhos e seu amor pela sua família, e ele simplesmente disse-me que eles não existiam mais. Perguntei o que ele queria de mim e ele apenas disse que queria dinheiro para comprar pedras de crack. Perguntei por sua saúde, e ele disse-me que sabia que estava doente, pois não conseguia comer quase nada, vomitava muito e sentia fortes dores abdominais, mas que passavam quando fumava. Perguntar se ele era feliz assim, claro que seria a pergunta mais idiota que alguém teria feito a ele, mas eu perguntei se ele queria viver dessa forma até morrer. E R respondeu que, morrer era tudo o que ele mais queria, porque assim deixaria de sofrer, pois ele não tinha coragem de tirar a própria vida.

Dei-me conta então que R ao dizer que queria morrer e que não tinha coragem de se matar, estava pedindo um último socorro. Disse que ia levá-lo para uma clínica de internação e mais uma vez tentar libertá-lo do vício. Mas R então fugiu dizendo que assim ele enlouqueceria, e que preferia morrer lúcido. Me deu adeus agradecendo por toda ajuda, me deu as costas e saiu andando rapidamente por uma rua escura. Tentei alcança-lo, mas ao virar uma esquina ele simplesmente desapareceu. Buscas estão sendo feitas sempre que possível em todas as cracolândias de São Luís na tentativa de reencontrar R, pois o desespero de quem ama R é imenso. Esse é o mundo sedutor das drogas. Uma sedução de promessas falsas, ilusões e mentiras ao afirmar que colocará prazer no lugar da dor, ou que simplesmente é a resposta para quem deseja curtir prazeres desconhecidos, obscuros.

Não se deixe enganar. Ao fazer uso de drogas você não as consome, mas elas sim te consomem. E uma vez escravo delas as chances de se libertar são mínimas.