A Democracia Brasileira é considerada uma democracia jovem se comparada com outros países, mas nem por isso não possui os mesmos entraves que sempre colocam em risco o sentido real do que é de fato uma democracia.  Se democracia significa “poder que emana do povo”, é preciso que se entenda que esse povo precisa se sentir representado. A problemática está justamente em dar essa representatividade para todas as classes ou segmentos sociais que constituem o povo de uma determinada nação. Talvez por conta disso que a manutenção da própria Democracia esteja na alternância de poder, como forma de garantir que todos os seguimentos sociais possam ter seus próprios representantes políticos e a partir deles políticas públicas.

Todavia, se analisarmos a história da democracia brasileira percebemos que ela começou a ser forjada no viés do machismo, misoginia e racismo. Ou seja, as alternativas de representantes políticos eram empurradas para à população de acordo com uma ideologia machista, misógina e racista, pois acreditava-se que apenas os homens brancos e da elite, eram capazes de conduzir a política. Assim mulheres e negros não possuíam opções e acabavam sempre escolhendo dentre as alternativas que os partidos políticos apresentavam de forma arbitrária. Com a ascensão da mulher na política e logo depois com as conquistas do movimento negro, a democracia brasileira passou por uma reconfiguração, pois com a presença de mulheres e negros o povo brasileiro conseguiu abrir uma brecha dentro da elite política para reivindicar políticas públicas que pudessem beneficiar uma parcela da população encarada como minoria.

De fato, as minorias sempre vivenciaram à marginalização na sociedade por conta da falta de acesso às políticas públicas, exatamente por que essas minorias não possuíam ou não possuem representatividade política. Então que democracia é esta, em que o poder político só perpassa pelos mesmos modos operantes e que sempre beneficiam a uma determinada classe social? A verdadeira democracia precisa ser feita não só por meio da representatividade política, mas também garantir que essa representatividade atinja a todos os indivíduos que compõem a sociedade. Quando isso não acontece, não se pode chamar de democracia e sim de oligarquia.

Hoje em dia, os partidos políticos estão  se alinhando ao sistema de cotas para garantir o acesso a essas minorias de acordo com determinação do Tribunal Superior Eleitoral, contudo,  esse sistema de cotas ainda mostra-se falho quando se trata de candidaturas de pessoas que representem essas minorias, porque o lançamento de uma candidatura, por exemplo, é sempre uma decisão do próprio partido politico e que muitas das vezes está viciado no que diz respeito a alternância de poder.

É nesse sentido que o movimento trans tem se articulado em todo o país para que pessoas trans exijam filiações em partidos políticos e lancem candidaturas visando preencher, ocupar e dar visibilidade a essa representatividade política para essa minoria que diga-se de passagem, nunca até então se viu representada na democracia brasileira. A história nos conta o qual duro foi a ascensão da mulher na política, do negro e da pessoa trans não seria diferente exatamente porque possuem um ponto em comum; são minorias.

As minorias em todas as sociedades sempre sofreram dominações e isso sempre aconteceu porque não lhe eram dadas o compartilhamento do poder político. Por conta disso, essas minorias tem a tendência de se articularem em movimentos sociais com o objetivo de exercer pressão nos três poderes constituintes no Brasil: o Executivo, o Judiciário e o Legislativo. Ora, uma vez que não possuem representatividade política, essas minorias dificilmente serão beneficiadas por meio de políticas públicas e isso acaba gerando conflitos sociais tais como racismo, homofobia, transfobia, misoginíssimo, machismo, e, sobretudo, desigualdades sociais. Portanto, é de vital importância que esse sistema de cotas dentro dos partidos políticos não se limite apenas às filiações partidárias, mas também com o protagonismo de candidaturas para os mais diversos cargos políticos, pois só assim teremos de fato uma DEMOCRACIA.