A exclusão dos transgêneros do mercado de trabalho no Brasil

     IMG-20150509-WA0006 Quando se fala em competitividade no mercado de trabalho, travestis e transexuais ainda estão muito aquém dessa possibilidade. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA/ 2015), cerca de 90% estão se prostituindo para poder obter os recursos mais básicos de sobrevivência. É um fato preocupante, porque mostra o quanto travestis e transexuais são discriminados no mercado de trabalho. Além disso, por conta do preconceito, muitos acabam marginalizados o que contribui para a disseminação da transfobia, uma vez que se tem a tendência de encarar os transgêneros, como “transgressores” dos tabus sociais. É quase como se existisse uma convenção social para a exclusão de travestis e transexuais do mercado de trabalho, pois é raro ver transexuais cotadas em profissões de alto escalão. Talvez, por conta disso a maioria recorre à prostituição e até mesmo ao próprio mundo do crime, pois na luta por seus direitos percebe-se que as pessoas trans, pouco apoio possuem, e essa segregação acaba gerando conflitos sociais. É preciso que se entenda que a exclusão social sofrida por travestis e transexuais é uma questão estrutural e que tem base na formação cultural e educacional da sociedade brasileira.

     De fato, a identidade de gênero começa na infância, e a pessoa acometida por esse transtorno necessita de um apoio psicossocial não só para que entenda a si próprio e se estabeleça a valorização da identidade diante dos demais. Infelizmente o que se percebe, é justamente o contrário, a pessoa trans no Brasil, ver-se acuada desde à infância a esconder sua identidade, sofre bullying na escola, no seio familiar sofre constantes repreensões ou mesmo atos de violência, e quando por fim chega à fase adulta, percebe que precisará enfrentar a própria sociedade e suas regras estabelecidas. A sociedade ver nisso uma transgressão e a punição é justamente a exclusão social.

     Percebe-se, portanto, que o Brasil não apenas necessita de políticas públicas específicas que garantam os direitos de pessoas trans, como também faz-se necessário uma reforma no sistema educacional para que se estabeleça novos conceitos sobre a identidade de gênero, pois a própria palavra preconceito já pré-define que é um grande erro conceber conceitos antecipados de pessoas apenas por pertencerem a uma identidade de gênero diversa. Então se a inserção de travestis e transexuais no mercado de trabalho é uma problemática que vai muito além da quebra de preconceitos, qual seria a solução para reverter-se esse quadro? Umas das soluções encontradas pela Prefeitura Municipal de São Paulo por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, foi o Programa Transcidadania.

     O projeto tem por objetivo a reintegração social e a reinserção das travestis e transexuais no mercado de trabalho por meio da capacitação através de cursos profissionalizantes, além da própria conclusão do ensino fundamental ( Educação de Jovens e Adultos – EJA) e do incentivo de uma bolsa no valor de R$ 840,00. A pergunta é: as transexuais e travestis mesmo capacitadas e gabaritadas são aceitas pelas empresas? Embora, seja um fato que a evasão escolar é um grande problema na vida de pessoas trans, essa certamente ainda não é a melhor solução para incluí-las no mercado de trabalho. De acordo com a ativista Daniela Andrade, ativista transexual do Fórum da Juventude LGBT Paulista, e formada em Análise de sistemas a discriminação da identidade de gênero nas empresas se dá por conta do machismo. “Empresas dominadas por homens geralmente se incomodam com a presença de uma mulher trans.

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     Gera-se uma cultura organizacional de ter medo de se aproximar, de falar um oi, de chamar para almoçar, de dar tchau, de se relacionar profissionalmente. É visível o desconforto ao saberem que vão trabalhar e, de repente, ter o mesmo salário ou um salário menor que uma mulher trans”, afirma. É importante ressaltar que a capacitação profissional é de vital importância nesse processo de inclusão, mas não se pode descartar que todo profissional independente da área não é e nunca será autossuficiente, e talvez seja nessas horas que a cultura organizacional de uma determinada empresa possa ser melhor definida abrindo vagas não exclusivas, mas inclusivas para pessoas trans, pois a valorização do trabalho não está em quem o executa, mas o que se executa.

     4233330É justamente essa diferenciação que precisa ser implementada na cultura organizacional de grande maioria das empresas brasileiras, e nisso concentra-se incentivos que vão desde à ética profissional até ações pontuais que demonstrem que as relações interpessoais no ambiente de trabalho podem co-existir apesar da diversidade da identidade de gêneros. É nesse contexto que organizações como o Instituto Brasileiro de Políticas Públicas – IBRAPP, incentiva a participação não só de pessoas trans em seu quadro funcional de colaboradores, como também procura estabelecer em seu próprio código de ética o respeito à dignidade de todo e qualquer profissional independente da orientação sexual ou identidade de gênero.

     De acordo com o IBRAPP, o Brasil ainda é um país carente de educação em muitos aspectos, e um deles está justamente na questão da aceitação da diversidade sexual, por que isso não é ensinado nas escolas, e o aprendizado sobre isso sempre se dá de forma nociva. Outro ponto destacado pelo IBRAPP, é que grande maioria dos empresários não está preocupada com questões sociais e se eximem de poder ser co-participativos na solução de problemas sociais.

     Talvez o maior mal nessa segregação dos transgêneros seja a negação de direitos humanos em ter acesso ao mercado de trabalho bem como poder estudar, capacitar-se e exigir respeito à sua identidade. Por conta disso, se faz necessário também a criação de uma agenda de debates públicos e de movimentos sociais que defendam estas causas, como, por exemplo, o seminário promovido pelo IBRAPP em parceria com a Secretaria da Mulher no Estado do Maranhão, onde criou-se a partir de então processos que ainda estão em construção tais como a possibilidade de pessoas trans serem chamadas e identificadas por meio de seu nome social, banheiros exclusivos, programas e campanhas de combate às DST e emprego e geração de renda visando a redução da prostituição desse segmento.

     IMG-20151017-WA0052Mas, tais ações, movimentos ou iniciativas se isoladas acabam perdendo a força em mobilizar a sociedade para que a situação das travestis e transexuais possa melhorar. O ideal é que esse conjunto aconteça em uníssono com as mídias e indústria cultural porque possuem a vantagem de incentivar as massas e pautar o debate público. Além disso, se se trata de políticas públicas para um determinado segmento da sociedade encarado como minoria, isso significa que o poder público também deve intervir por meio de projetos sociais que defendam essas pessoas, quer seja reestruturando a forma educacional hoje estabelecida na sociedade brasileira ou executando ações que minimizem a vitimização dos transgêneros .

     Pois, embora ainda sejamos considerados um país de terceiro mundo, podemos mostrar que somos capazes de superar agravantes como esses, e demonstrar que não é excluindo pessoas que se constrói um país de todos. Exemplo disso foram os seminários realizados pelo Instituto no ano de 2010 em parceria com a Secretaria de Estado da Mulher – SEMU, onde formou-se uma agenda de debates e propostas acerca da inclusão social dos travestis que vivem em situação de vulnerabilidade social. Essa agenda, que ainda está em processo de consolidação, contempla a possibilidade de troca de nomes judicialmente, programas e campanhas de combate às DST’s, emprego e geração de renda visando a redução da prostituição desse segmento. Já para as comunidades quilombolas, que vivem quase reclusas da sociedade, o Instituto visa gerenciar projetos que as possibilite ter maior acesso e participação nas áreas da saúde, geração de renda, educação e cultura.

Guerra civil na Síria: uma luta por direitos humanos

     21A guerra civil na Síria, conflito que já se arrasta por quase 4 anos, já matou cerca de 200 mil pessoas, gerou mais de 3 milhões de refugiados e 2 milhões de desabrigados. Um número alarmante que tem causado grande preocupação na comunidade internacional por que a cada dia os conflitos só aumentam de proporção causando cada vez mais instabilidade em uma região já conhecida por suas guerras como o Oriente Médio.

     Mas, a situação na Síria que talvez mais provoque alarde na comunidade internacional não é apenas a disputa pelo poder entre Bashar al Assad com seus opositores, e sim a perseguição engendrada contra as minorias como os gays e os cristãos existentes naquele país. Nesta guerra civil não é apenas os sírios que estão sendo atacados, mas os conceitos de liberdade religiosa, expressão e direitos humanos, pois se o regime de Bashar al Assad intitula por meio de um código penal que é ilícito dois homens praticarem conjunção carnal ou “ atos não naturais” isso suscita não apenas a homofobia, mas agride os próprios direitos humanos universais quando atrela tal lei aos cânones da fé islâmica, pois é preciso que exista uma desassociação da religião e do Estado. De fato só em um Estado laico a democracia pode sobrepujar à ditadura. Como é possível que em pleno século XXI pessoas estejam sendo perseguidas, torturadas e executadas apenas porque professam um credo religioso encarado como minoria por uma determinada comunidade?

      Pulitzer-AP-PHOTO-MANU-BRABO_EDIIMA20130416_0187_13Quando ataques são feitos aos direitos humanos, é preciso que se entenda que não se trata de um ataque isolado, pois comunidades globais como os homossexuais e os cristãos sentir-se-ão ameaçados. Quando o direito de protestar, de reivindicar é negado a um povo, subentende-se que um duro golpe está sendo orquestrado contra a democracia. É nesse contexto que o movimento “Primavera Árabe” necessita do apoio das nações ocidentais, pois a luta pelo estabelecimento da democracia e por uma sociedade mais igualitária foi e continua sendo a luta pela qual o ocidente tanto se empenhou.

    Cidades como Raqqa e Idlib na Síria estão sendo dizimadas por milícias, facções terroristas e por represálias do exército sírio, e por conta disso, milhares de refugiados estão procurando abrigos nos países vizinhos e da Europa. E por que fogem? Não fogem apenas por conta dos dissabores causados pela guerra civil, mas por que não se sentem protegidos por uma tríplice perseguição; pela sociedade (delatores rebeldes), grupos terroristas como o Estado Islâmico e o Al-nusra, além do exército oficial sírio, pois todos de comum acordo têm perseguido os homossexuais na Síria, por exemplo. Embora essa perseguição e extermínio esteja sendo cometida em sua maior parte pelos grupos terroristas que, aproveitando-se da ocasião em que a “Primavera Árabe” chegou à Síria, pretendem implementar seus próprios interesses revolucionários no país (  destruir as instituições na Síria para contribuir para a criação de um Estado Islâmico, um Califado totalitário guiado pelo radicalismo Islã). Diante dessa perspectiva faz-se necessário uma intervenção internacional para que não seja perpetrado um verdadeiro genocídio contra os sírios, independente se são homossexuais A boy is treated by doctors and nurses after he sustained minor injuries from an airstrike in the Sha'ar neighborhood of Aleppo, Syria, on Friday, August 24, 2012.Nessa luta pela sobrevivência fugas mal sucedidas têm acontecido a todo instante; embarcações com superlotações naufragadas no mar mediterrâneo, esconderijos em covas, motores de veículos e porões de navios. O que assistimos é a fuga de um povo contra o extermínio, e exatamente por isso não podemos ficar parados apenas assistindo o desenrolar deste brutal conflito. Os refugiados pedem socorro e a assistência nesse sentido precisa ser dada por meio de uma gestão não apenas humanitária, mas também econômica, pois trata-se de pessoas que buscam melhores condições de vida. Esta é uma das grandes preocupações atuais da Organização das Nações Unidas – ONU, pois não basta apenas despejar pessoas em um grande deslocamento para outro país e torná-las miseráveis. Outro ponto preocupante é o caos que a imigração em massa pode causar para a economia de países emergentes.

     É nesse contexto que o Instituto Brasileiro de Políticas Públicas – IBRAPP tem procurado as embaixadas da Síria em Minas Gerais e o Comitê Nacional para os Refugiados – CONARE no Distrito Federal, com o objetivo de criar, junto a esses Órgãos, uma agenda ou plano estratégico a fim de oferecer ajuda a refugiados sírios, sobretudo, aos homossexuais, pois o IBRAPP acredita que, por se tratar de uma minoria seja a parte mais afetada nessa perseguição. Dessa forma, o IBRAPP pretende oferecer abrigo, trabalho e apoio psicossocial a refugiados que queiram escolher o Brasil como exílio.

This citizen journalism image provided by Shaam News Network SNN, taken on Sunday, July 22, 2012, purports to show a fireball in Homs, Syria. (AP Photo/Shaam News Network, SNN)THE ASSOCIATED PRESS IS UNABLE TO INDEPENDENTLY VERIFY THE AUTHENTICITY, CONTENT, LOCATION OR DATE OF THIS CITIZEN JOURNALIST IMAGE

 Essa iniciativa é uma prova que precisamos nos unir nesta luta e salvaguardar direitos elementares como liberdade religiosa, expressão ou orientação sexual. E independente das nossas diferenças ou interesses particulares precisamos entender que, nós enquanto seres humanos, fazemos parte de uma única comunidade, e exatamente por conta disso devemos estabelecer a fraternidade como um bem maior.

     Dessa forma, se a guerra civil na Síria fere os ditames da democracia e dos direitos humanos ela nos vitimiza porque atenta contra os preceitos elementares para se construir uma sociedade mais igualitária. E se somos atacados nesse sentido, precisamos demonstrar apoio e solidariedade ao povo sírio quer seja por meio de acolhimento, proteção, intervenção, retaliação ou simplesmente dizendo que eles não estão sozinhos.

Intolerância homofóbica no facebook

     As redes sociais, sem sombra de dúvida, nos dias de hoje são as ferramentas mais comumente usadas para estreitar relacionamentos, vendas e até difusão de ideologias. O facebook, por exemplo, já possui em todo o mundo bilhões de usuários, e outras  redes como o whatsapp estão ampliando seus horizontes quando o foco é a comunicação rápida, precisa e instantânea de forma multimídia. É claro que todo esse avanço tecnológico tem sido de extrema relevância para o mundo globalizado e ao mesmo tempo cosmopolita em que se vive. Todavia, se essas redes sociais tem esse poder de difundir ideias e ideologias, é preciso que uma política de vigilância e controle seja mantida em alguns casos de segregação étnica, sexual, filosófica, política e religiosa. Pois se essas redes têm um caráter de permitir a liberdade de expressão, esta, contudo, não pode ser confundida com argumentos de intolerância e que por fim resultem em agressões verbais ou até mesmo de incentivo a crimes.

"Procura um grupo de travestis,com certeza tem algum,aqui queremos é mulheres e não aidéticos como você! Presta atenção!! Não fica tirando onda que eu acho você e garanto que não será difícil!", afirma Jean Henrique Valois

“Procura um grupo de travestis,com certeza tem algum,aqui queremos é mulheres e não aidéticos como você! Presta atenção!! Não fica tirando onda que eu acho você e garanto que não será difícil!”, afirma Jean Henrique Valois

     O facebook , por exemplo,  possui uma ferramenta onde  denúncias desse tipo podem ser feitas ao próprio sistema de moderação da rede social e na falta de tais ferramentas as próprias postagens podem ser usadas como provas substanciais de crimes de intolerância. Jean Henrique Valois, usuário do facebook, postou recentemente em um grupo da rede, argumentos homofóbicos contra outro usuário do mesmo grupo. Tudo porque a travesti, Lohanna Pausini, publicou fotos suas posando ao lado do namorado e outras onde reafirmava sua orientação sexual. O  fato é que Jean Henrique Valois, não apenas limitou-se a  expor sua opinião, mas sim argumentos homofóbicos onde não apenas declara que a Lohanna Pausini não deveria está no grupo, por não ser heterossexual, como também chega a ameaçá-la de morte ao dizer que seus dias estão contados. Confira aqui acessando o facebook2

     O grupo já foi denunciado para análise no próprio sistema de moderação do facebook e como se trata de ameaças graves deve ser também levado diante das autoridades policiais para investigação. Jean Henrique Valois, pode ser indiciado por homofobia bem como por difundir  discurso de violência contra a comunidade gay. Além disso, pode ser também processado por perpetrar ameaças, o que de acordo com o código penal brasileiro prever detenção de até 12 meses ou prestação de serviços comunitários.

    O importante aqui lembrar é que, ainda que estejamos vivendo em pleno auge da liberdade de expressão, precisamos atentar que liberdade de expressão não pode ser confundida com discursos de violência. Pode-se ter ,por exemplo, o direito de ser contra o casamento gay, ou mesmo ter preconceito contra os gays. Todavia, quando você diz que é contra o casamento gay e que os gays não possuem esse direito porque não são pessoas normais, corre-se o risco de não apenas está sendo preconceituoso mas também homofóbico. E homofobia é crime previsto em lei.

Retrato da injustiça

imag1        Heberson,

     Nem sei como te dizer isso. Tateio pelas palavras certas há horas – elas me escapam. Claro que você já foi avisado e até leu no noticiário local, mas eu queria pedir desculpas. O governo do Estado do Amazonas questionou o valor da sua indenização. É, eles acham R$ 170 mil um valor muito alto pelos quase três anos em que você passou na cadeia, acusado de um estupro que não cometeu. Querem pechinchar pelo vírus HIV que infectou o seu corpo após os abusos sofridos atrás das grades. Seu sofrimento está “caro demais” para os cofres públicos. Como se algum dinheiro no mundo pudesse apagar o que você viveu.

    Até hoje, como naquele dia em que te entrevistei, sinto minhas tripas se revirarem. Lembro de você contando que tinha 23 anos e trabalhava como ajudante de pedreiro na periferia de Manaus quando o crime aconteceu. Uma menina de nove anos, filha de vizinhos, havia sido arrastada para o quintal durante a noite e violentada. A família o acusou de tamanha brutalidade e a delegada expediu um mandado de prisão provisória para investigar o caso. Você, que não tinha antecedentes criminais. Você, que divergia completamente do retrato-falado. Você, que estava em outro lado da cidade naquele horário. Mas você é pobre, Heberson. Pobres são presas fáceis para “solucionar o caso” e atender o clamor popular. As vozes que te xingaram ainda ecoam?

     “Eu morri quando me fizeram pagar pelo que não fiz”, você disse, me matando um pouco também sem saber. Em tese, por lei, você não poderia ficar mais de quatro meses aguardando julgamento na cadeia. Sua mãe, desesperada, pegou empréstimos para bancar advogados particulares. Mesmo sem comida em casa, a dor no estômago era por justiça. Não dava para contar com a escassa quantidade de defensores públicos no país (embora, depois, a doutora Ilmair Faria tenha salvo o seu destino). Enquanto ela se rebelava aqui fora, você se resignava com os constantes abusos sexuais de que era vítima. Alegar inocência sempre foi a sua única arma. De que forma lhe deram o diagnóstico de Aids?

     Sabe, querido, eu gostaria de ter presenciado o parecer do juiz na audiência que demorou dois anos e sete meses para acontecer. Deve ter sido um discurso bonito. Juízes usam frases empoladas, especialmente para se desculpar em nome do Estado por um erro irreparável. Onde estava a sua cabeça no momento em que ele declarou que você estava “livre”? Porque eu me pergunto como alguém pode supor que liberta o outro de suas memórias, de suas dores, de sua desesperança, de uma doença incurável. Você continua preso. Tanto que passou anos sem conseguir emprego por causa do preconceito e perambulou pelas ruas sob o efeito de qualquer droga que anestesiasse a realidade. Livre para ser um morto-vivo.

     Na sala do meu apartamento, há um troféu de direitos humanos que ganhei por trazer à tona sua história. Olho para ele e enxergo a minha impotência. E os ossos saltados da sua pele. Com vinte quilos a menos, as suas roupas parecem frouxas demais – quanto você perdeu além do peso corpóreo? Imagino se a Procuradoria Geral do Estado (PGE), que negou o pedido da sua indenização, sabe das suas constantes internações decorrentes da baixa imunidade. Será que alguém abriu a porta da sua geladeira e descobriu que, muitas vezes, você passa um dia inteiro tendo se alimentado de um único ovo? Ou será que eles se restringem a documentos e números?

     Não consigo deixar de pensar que você foi estuprado de novo. Pelas canetas reluzentes de quem toma essas decisões descabidas. Você levou sete anos para ressuscitar a sua determinação e cobrar os seus direitos. Em parte, motivado pelo apoio das 23 mil pessoas que aderiram a uma campanha virtual pela sua história. Toda semana recebo mensagens de gente querendo saber sua situação, se oferecendo para pagar uma cesta básica ou dar assistência jurídica. Recentemente, um professor criou um grupo que mobilizou mais de mil cidadãos para ajudá-lo até com despesas de medicamentos. Minha última pergunta (eu, que não tenho respostas) é: O que mais nós podemos fazer por você, já que o Estado não faz?

     Que o meu abraço atravesse a geografia entre São Paulo e Manaus.
Sinto muito, querido.

Nathalia Ziemkiewicz

UPDATE:

Segurança Pública no Maranhão está falindo?

20131010024037801451a      Os ataques e atentados ocorridos na ultima sexta-feira (03/01) na cidade de São Luís comprovam que as facções criminosas não só estão mais ousadas como também destemidas. Pois atear fogo em ônibus coletivos, metralhar delegacia e assassinatos foram atos que essas facções perpetraram contra a sociedade ludovicense como uma forma de desafiar as autoridades locais.

     O que é ainda mais assombroso é o fato que as ordens para que esses crimes fossem cometidos partiram de dentro da penitenciária de Pedrinhas, onde um dos líderes da facção criminosa Bonde dos 40 está cumprindo pena. É justamente nessa mesma penitenciária que nos últimos dias e meses têm ocorrido inúmeras rebeliões, onde os apenados não reivindicam melhorias, mas travam uma guerra entre as facções para comandarem o próprio presídio. Detentos são mutilados, decapitados, violentados e assassinados. Outros conseguem burlar as próprias defesas da penitenciária e se evadem em massa.

     E tem aqueles que vão curtir uns dias com a família, obedecendo a um direito assegurado por lei, mas que não mais retornam ao presídio. E enquanto as facções brigam entre si (Bonde dos 40 x PCM), sempre que uma das partes sofre alguma perda ou dano, a sociedade civil sofre suas represálias e ditam ordens de ir e vir para os cidadãos de São Luís.

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     Embora a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão tenha procurado combater com veemência esses criminosos, prendendo suspeitos em tempo hábil, a sociedade continua, ainda assim, refém dessas facções porque apesar de todas as prisões que já foram efetuadas, a Polícia Militar e Civil do Maranhão ainda não conseguiram desarticular essas quadrilhas. Prova disso é que, os criminosos ainda que presos, continuam no comando e ditando ordens que são executadas com presteza por seus comandados.

     A onda de ataques em São Luis, rebeliões, assassinatos e fugas nas penitenciárias no Maranhão corroboram o que grande parte da população maranhense mais temia: a falência do sistema prisional do Maranhão.

     Alguns alegam que a questão é bem mais estrutural do que parece, onde interesses políticos podem está envolvidos ou não. Outros afirmam que o problema está na própria morosidade da justiça em julgar todos os apenados e que o código penal brasileiro precisa ser reformulado com a implantação de leis mais severas como a pena de morte ou suspensão de certos direitos concedidos aos detentos.

Pedrinhas-011-300x169     Talvez a solução emergencial para a crise do sistema prisional do Maranhão deva ser administrativo que não está de fato aplicando com rigor a lei. Uma alternativa seria a transferência dos líderes dessas facções para presídios fora do Maranhão onde não pudessem ter contato com seus comparsas.

       O fato é que o Governo do Estado do Maranhão precisa dá uma resposta não só para o procurador do Governo Federal que está no estado pedindo uma intervenção federal para o caso, como também para a própria sociedade maranhense já que é esta a principal refém dessa onda de criminalidade.

Descaso com um ser humano

Ismael de Jesus Fonte Serra ( 38), ex-integrante da banda Astral da cidade de São Bento, encontra-se hospitalizado no Socorrão I, vítima de Psoríase  uma doença degenerativa da pele. O estado de saúde do músico é grave, por que segundo os médicos, a infecção está generalizada. A psoríase, é caracterizada pela presença de lesões avermelhadas, bem delimitadas, descamativas,em qualquer parte do corpo e pode  apresentar períodos de melhora e piora ao longo da sua evolução. A psoríase pode levar a uma piora na qualidade de vida dos pacientes, devido ao preconceito das pessoas que os cercam, embora a doença não seja contagiosa. A doença está correlacionada a depressão grave, e Ismael vinha lutando contra uma forte depressão.

O músico, sem ter conhecimento ainda da doença, foi rapidamente negligenciado por seus familiares, o que só contribuiu para que a doença evoluísse. Segundo Joyce Lopes Pinheiro, amiga de Ismael, todos suspeitavam que ele estava muito doente , pois definhava a cada dia. ” Muitas vezes Ismael tinha fortes dores, e fraqueza, diarreia ao ponto de não poder levantar-se da cama. E quando agente perguntava para os irmãos dele sobre o seu  estado de saúde, apenas diziam que estava cada vez pior, mas que mesmo assim ninguém se prontificava em levar o mesmo para um hospital”, afirma.

Ainda segundo outra amiga de Ismael, Carla Lopes Pinheiro, em certa ocasião em que a mesma foi visitar o amigo, ele chegou a pedir para ela que a mesma o internasse, pois não aguentava mais as dores que o acometiam, e por que estava muito fraco para sair da cama, não podia contar em ir sozinho ao hospital . Nessa mesma ocasião, foi que a amiga constatou que nos ferimentos da pele de Ismael existiam larvas e vermes.

” Fiquei chocada, quando eu vi aquelas larvas e vermes, saindo das feridas de Ismael. Pensei que fossem superficiais, mas logo vi que os vermes, circulavam por todo o corpo dele, abrindo feridas, despencando como frutos maduros, do rosto, dos pés”,  diz.

As amigas então sensibilizadas chamaram os irmãos e pediram ajuda para que o levassem ao hospital. Mas os irmãos, insensíveis, não se prontificaram em ajudá-las,e foi preciso que as amigas de Ismael chamassem a polícia para que entrassem na casa e o levassem até o hospital Djalma Marques ( Socorrão I).

A pele pútrida de Ismael causa um odor insuportável, e o vermes e larvas continuam corroendo-o e si multiplicando, e a doença se agrava cada vez mais. Desde a noite de sábado, dia 24 de novembro, Ismael espera uma intervenção cirúrgica no hospital Socorrão II, para a retirada dos vermes e larvas, bem como fazer uma completa raspagem de seus ferimentos.

Embora a cirurgia possa ser bem sucedida, os médicos , já alertaram que abrirão um inquérito no Ministério Público, contra a família de Ismael por maus tratos, pois os mesmos afirmam que a doença embora não tenha cura é tratável, e pode ser perfeitamente controlada, e que deixar uma pessoa definhar e apodrecer ao ponto de nascer vermes e larvas na carne não só é um ato de insensibilidade, mas também de desumanidade, e pode ser constituída como um crime.

Negligência profissional pode custar uma vida.

Segunda-feira ( 06/06/2011)

            Daniel de Oliveira Ferreira (19), estava retornando para casa, após uma noite de trabalho como moto-taxista. Sempre muito cauteloso, Daniel jamais se excedia na velocidade. Não por que a pressa não fosse seu lema, mas por que, como motorista e piloto procurava sempre respeitar as leis de trânsito, por que assim sabia que estaria respeitando a vida no trânsito.

            Além disso, a preocupação de seus pais, por ele está sempre imiscuído no trânsito caótico da cidade de São Luís, fazia com que Daniel dirigisse e pilotasse sempre com cautela.

            Mas nesta noite um grave acidente viria acometer Daniel. Durante seu percurso na Avenida Lourenço Vieira da Silva, no bairro do São Cristovão, em frente ao Terminal de Integração, um ônibus da empresa Viação Abreu, da linha Vila J. Lima de numeração 54025, após uma curva negligente, fez com que Daniel colidisse sua moto na traseira do ônibus.

            No impacto Daniel foi jogado na pista e muito assustado, constatou que havia sofrido um ferimento na altura do joelho direito.

            O motorista do ônibus, ainda mais assustado, rapidamente procurou evadir-se do local. Talvez por que soubesse que foi sua manobra negligente que havia causado o acidente, uma vez que o mesmo não tinha feito o retorno pela via lateral antes de adentrar o terminal da Integração, como então manda a Secretaria de Transportes Urbanos de São Luis.

            Daniel, ainda atordoado com a pancada, olhou em volta de si, tentando encontrar um amigo naquela hora tão difícil de sua vida, enquanto a dor em sua perna aumentava progressivamente. O sangue rapidamente começa a condensar-se, tornando-se mais escuro e aos poucos começou a estancar. Contudo a dor ainda era intensa. “Será que fraturei minha perna”, pensou Daniel reprimindo um grito agudo de dor.

            O trânsito automaticamente congestionou-se, pois Daniel e sua moto ainda permaneciam estirados no meio da pista à espera de socorro.

            Foi então que nesse momento, no meio de uma multidão de curiosos que então havia se formado em volta do acidentado, Daniel viu um rosto conhecido, um amigo seu. Com os olhos cheios de esperança ele pediu ao amigo que ligasse para seus pais informando o que havia acontecido. “Vai ficar tudo bem Daniel, eu já chamei uma ambulância e seus pais serão informados, trate de ficar calmo”, disse-lhe o amigo postando-se ao seu lado enquanto segurava-lhe uma das mãos trêmulas.

 Terça-feira (07/06/2011)

            Daniel deu entrada no Hospital Clementino Moura (Socorrão II), por volta da meia-noite. Como de praxe, foi atendido no pronto socorro, onde após um rápido curativo, o médico pediu um exame de Raios-X a fim de constatar se havia fratura.

            Nesse ínterim os pais de Daniel e outros parentes chegaram ao Hospital, todos ainda mais alarmados do que ele próprio. Mas o médico tratou de tranquilizá-los, afirmando que Daniel estava bem e em ótimo estado de recuperação. “Nesses casos de acidentes de moto o pior é o traumatizo craniano e por sorte Daniel estava de capecete”, afirmou o médico que dando uma rápida olhada do Raio-X franziu a testa em sinal de preocupação. “Bom o resultado do enxame está muito confuso, terei que pedi talvez outro exame e até lá o paciente ficará aqui em observação”.

            Os pais de Daniel com os olhos rasos de lágrimas aquieceram e foram se postar ao lado do filho que a essa altura já demonstrava um pouco mais de calma, embora ainda se queixasse de dor na perna.

            O resto da madrugada Daniel ficou à espera do médico para que pudesse autorizar um novo exame de Raios-X, mas ao invés disso, para sua surpresa, ele foi levado novamente para a enfermaria para um novo curativo onde desta vez, o corte ao lado de seu joelho direito foi ponteado. “Não se preocupe isso não irá atrapalhar o exame de Raios-X, um ferimento como este não pode ficar exposto dessa forma”, tranqüilizou-lhe a enfermeira.

            Pela manhã Daniel estava com febre e a dor em sua perna latejava esporadicamente. Um outro médico então foi indicado para lhe atender, e este assim como o outro, não deu qualquer parecer sobre se havia ou não uma fratura na perna de Daniel, mas constatando que a mesma estava muito inflamada, receitou anti-inflamatórios e antibióticos para tratar a infecção.

            Durante todo aquele dia, a família de Daniel visitou o hospital, e todos, sempre muito preocupados, procuravam saber qual era o seu diagnóstico. Mas o que a todos era informado era que Daniel tinha uma pequena infecção no ferimento da perna e que esta, estava sendo tratada e que por isso deveria continuar hospitalizado.

            Quarta-feira (08/06/2011)

            Daniel amanheceu acometido por uma forte febre e a infecção em sua perna demonstrava uma rápida progressão, pois toda a região em volta do joelho e parte da coxa estava arroxeada. Os próprios familiares de Daniel cogitaram se não seria mais aconselhável fazer um novo curativo no ferimento, ainda que tivesse que abri-lo novamente, pois diante do estado de Daniel, alguns já pensavam o pior. Mas os médicos mostraram-se irredutíveis, pois julgavam que estavam agindo de acordo com seus conhecimentos médicos. “Pode haver uma fratura na perna dele, mas isso será logo diagnosticado assim que a infecção retroceder. Vamos continuar com os antibióticos”, afirmou o médico com altivez.

            Quinta-feira (09/06/2011)

            A família de Daniel em um ato de desespero ao ver o estado de Daniel se agravar mesmo com o tratamento médico recebido, providenciou que este fosse transferido para um outro hospital público. Mas por questões burocráticas e por fim, por que os médicos do Hospital Clementino Moura, responsáveis por Daniel, estavam quase sempre ausentes e quando presentes nunca disponíveis para tratar do assunto, a transferência não foi efetivada.

            Sexta-feira (10/06/2011)

            A perna de Daniel estava completamente tomada pela infecção. A pele antes alva, estava toda roxa e fortemente inflamada. Um odor pútrido já começava a ser exalado do ferimento. Daniel então começa a delirar de febre. Seus olhos começaram a revolverem-se na órbita, enquanto sua pressão despencava.

            Franciara (20), prima de Daniel e que no momento fazia vigília ao seu lado, totalmente apavorada, saiu correndo e gritando por socorro.

            No corredor, ao encontrar com o médico, foi advertida que não deveria fazer todo aquele escândalo dentro de um hospital, onde havia pessoas doentes, algumas muito mais graves do que seu primo. “Além disso, pessoas estão sempre morrendo por aqui”, sentenciou o médico com rispidez.

            Somente depois, o médico foi atender Daniel, e ele próprio assustou-se ao perceber o rápido avanço da infecção em sua perna.

            Muito nervoso, o médico transferiu Daniel para o centro cirúrgico onde executou uma raspagem da ferida, bem como a extração do pus e secreção.

            Daniel quase inconsciente devido a febre, horas depois voltou para seu leito. Naquele momento toda sua família estava ali presente. Podia-se ouvir alguns murmúrios que, devido a infecção generalizada, a perna de Daniel podia ser amputada.

            Mas enquanto já se pensava isso, o próprio Daniel, devido aos fortes efeitos da anestesia, parecia deslocado, onde não conseguia emitir nem mesmo um só gemido de dor.

            Seus pais fitavam o filho com lágrimas nos olhos, rogando a Deus para que não permitisse que a perna dele fosse amputada e que a mesma fosse sarada. Suas primas, pediam forças para que ele continuasse resistindo.Seus tios, que todo aquele tormento acabasse e que Daniel fosse restabelecido. Seus amigos, que a maldita infecção cessasse.

            Mas durante todo aquele dia Daniel, muito fraco vez por outra murmurava que queria ir para casa, que não agüentava mais aquele lugar, e pedia que, se alguém pudesse, fizesse a dor parar.

            Com seus olhos turvos, mergulhado em um leito febril, sentindo fortes calafrios, e sem jamais ter coragem de olhar para o estado em que se encontrava sua perna, Daniel olhava cada um de seus parentes, sentindo que cada um deles compartilhava de sua dor. E embora não conseguisse falar, pedia em seu coração a Deus que queria viver. Não apenas por que amava a si próprio, mas por que não desejava causar dor alguma a seus pais, à sua família.

            Sábado

            Na madrugada de sábado, o estado de Daniel agrava-se mesmo após a cirurgia e os médicos cada vez mais receosos, transferem Daniel uma vez mais para o centro cirúrgico para uma nova sessão de raspagem, e desta vez, em um ato de desespero, para tentar estagnar o avanço da infecção (gangrena?) grande parte do músculo da perna de Daniel é removido.

            Mas a pressão de Daniel cai vertiginosamente, seu corpo sofre convulsões e seu ritmo cardíaco começa a desacelerar rapidamente. Os médicos boquiabertos vêem a morte de Daniel, bem ali na frente deles, na mesa de cirurgia.

            Enquanto isso a família de Daniel, com grande aflição, matem-se firme pelos corredores do hospital à espera de uma notícia ou mesmo de verem Daniel descendo em uma maca em um estado melhor.

            Mas ao invés disso é uma enfermeira que com passos tímidos aparece no corredor, se aproxima deles e lhes diz: “Sinto muito, mas ele não resistiu a última cirurgia. Ele veio a óbito”.

            O pranto então explodiu no peito de todos. Todos como se não acreditassem no que a enfermeira havia dito, dispararam em direção ao centro cirúrgico. Precisavam ver para crer. A final após tantas contradições era possível que a notícia fosse falsa. Era até mesmo possível que a enfermeira tivesse se confundido e houvesse dado a notícia para a família errada. Talvez não fosse Daniel.

            Mas foi então que um dos tios de Daniel, invadindo o centro cirúrgico viu. Era ele. Era Daniel. E eles às pressas estavam embrulhando seu corpo em um grande saco plástico etiquetado para o necrotério do hospital. “Naquilo que agente queria que eles estivessem errados, eles estavam certos, sim meu sobrinho está morto. Mas naquilo em que agente queria que eles acertassem, eles erraram”, gritou o pobre tio de Daniel enquanto se abraçava ao resto de sua família.

            Pela manhã, o corpo de Daniel foi levado para o Instituo Médico Legal (IML), a fim de ser submetido a uma autópsia, onde segundo o próprio parecer do médico legista a causa da morte do rapaz deu-se por causa da infecção generalizada. Contudo, o médico mostrou-se chocado ao perceber que o avanço dessa infecção deu-se devido a um pequeno ferimento. Ferimento este que, segundo ele, poderia ter sido curado e remediado de forma mais responsável. “Como médicos podem deixar que um ferimento infeccione dessa forma, e o que é pior, deixem que uma infecção avance sem controle adequado?” perguntava-se o médico legista enquanto despachava o corpo de Daniel para seus entes queridos.

            E embora ele não manifestasse sua opinião abertamente, ele pôde entrever nos olhos de todos, que foram buscar o corpo de Daniel, um lampejo de decepção e revolta pelo tratamento médico dispensado a Daniel.

P.S.: Este relato fidedigno dos fatos só foi possível graças a entrevista da prima de Daniel, Ana Carolina Dias Ferreira (20), que foi testemunhar ocular de todos os fatos aqui narrados.

É importante ressaltar que o tratamento médico nos Socorrões I e II da cidade de São Luís, é sem dúvida de vital importância para os casos de primeiros socorros e que muitos profissionais ali desempenham seu trabalho com muita humanidade e profissionalismo. Todavia, percebe-se muitos casos em que alguns destes profissionais por um motivo ou outro deixam muito a desejar, sobretudo no que tange a solidariedade, humanismo e amor ao próximo. Um médico, por exemplo, é um salva-vidas literalmente, e por isso mesmo precisa doar-se de corpo e alma para seu paciente, sem se importa com seus honorários. Uma enfermeira,é um bálsamo para as dores, feridas e sofrimento de um paciente, e por isso deve está sempre disposta a ser isso. Nisso reside a sua dignidade enquanto profissional.

O caso de Daniel, não é um caso isolado, ele vem acontecendo diariamente nos grandes hospitais de São Luís e do Brasil como um todo. Perguntem-se: médicos que não são capazes de ler um exame de Raios-X? Médicos que a despeito de sinais graves de infecção permanecem impassíveis? Médicos que optam por um tratamento paliativo e não curativo? Médicos indispostos? Enfermeiras indiferentes? Médicos propensos a remediar somente em último caso? Uma infecção que menos de uma semana levou a vida de um rapaz saudável de 19 anos? Diagnósticos contraditórios? Antibióticos impotentes?

Como sou apenas jornalista posso apenas fazer estas indagações, mas acredito que para respondê-las seria preciso requerer um inquérito, e este direito cabe apenas à família de Daniel.

Deixo, contudo, um alerta: a negligência médica custa caro, custa uma vida.

Por que trair?

Ter e manter um relacionamento amoroso requer não só amor, mas também responsabilidade e respeito, e talvez por falta disso, vemos muitos relacionamentos desmoronarem de forma tão dolorosa.

Mas por que será que nos apaixonamos? O que nos leva a buscar em outra pessoa a felicidade, o gozo, o sorriso e alegria? Que química faz com que nossos corpos se atraiam e faz a empatia de cada um de nós, para que juntos, queiramos ser um só? E por que essa busca acontece no meio de tantos percalços, frustrações e decepções como a dor da traição, rejeição e desprezo?

Com meus 29 anos de idade eu adquiri um pouco de experiência sobre o caráter e o comportamento das pessoas quando estão apaixonadas, quando estão traindo e por que o fazem. Para tanto vou me limitar um pouco sobre o relacionamento homoerótico ou homoafetivo, já que sou gay e, por tanto, tenho experiência e gabarito para falar no assunto.

Acredito acertadamente que as pessoas sentem a necessidade de se apaixonarem por que nascem meio que incompletas emocionalmente. Você pode sorrir consigo mesmo, nada te impede disso, mas é bem mais gostoso e real se você o faz com outra pessoa. Você pode chorar sozinho, mas se sentirá confortado se tiver um ombro amigo para chorar. Você pode cantar para si próprio, mas se sentirá mais reconhecido e vivo se o fizer para uma platéia. Você pode falar sozinho, mas só alcançará compreensão se se dirigir a alguém. Por fim você pode até fazer sexo consigo mesmo (masturbação), mas só atingirá o orgasmo, se estiver transando com alguém. Sim, você pode e deve se amar em primeiro lugar, mas também precisará de alguém para receber esse amor.

Diante disso, posso afirmar que o que nos leva a nos apaixonar ou amar é a combinação daquilo que talvez buscamos em nós mesmos, e que por um motivo extremamente relativo, torna-se fugidio de nossas vidas, e é exatamente isso que nos possibilita a busca incessante pelo amor romântico.

Mas se essa teoria está certa, então por que mesmo encontrando essa parte emocional e afetiva tão escassa e almejada, muitos abdicam dela em troca de uma mera distração ou aventura sexual? Por que existem tantas traições nos relacionamentos amorosos?

Não sou nenhum psicólogo, sou jornalista, mas mesmo assim, posso dizer que quem assim age, está traindo a si próprio em primeiro lugar, pois está contradizendo essa busca inata.

Tenho vivido e presenciado muitos casos em que após trocas e juras de amor, esse sentimento tão nobre, ver-se conspurcado por uma tola aventura sexual. E aqui estou me referindo não àqueles relacionamentos desgastados pelo tempo ou desprovidos de amor verdadeiro, mas sim daqueles cúmplices em que dois mais dois é um e não quatro.

Já me apaixonei oito vezes e amei verdadeiramente cada um dos meus namorados com toda a intensidade do meu ser, e embora todos tenham sido abalados pelos percalços que certanmente um homo e um bi (sim pois todos os meus ex-namorados eram bissexuais), passam em uma relação homoafetiva, apenas dois destes conseguiram macular a imagem do amor perfeito que eu trazia no meu coração, com a dor da traição. E não foram traições daquelas em que você se sente menosprezada ou inferiorizado pelo rival e onde você às vezes faz a tola pergunta: o que ele ou ela tinha melhor ou a mais do que eu? Foram traições a eles próprios, pois atiraram no lixo todo o amor que eu lhes devotava em troca de uma mera aventura sexual ou de um gozo de uma transa corriqueira, movidos pela promiscuidade. Claro que meu coração ficou despedaçado do mesmo jeito, e chorei e me desesperei como todo mundo quando é traído. Mas logo depois, eu analisei que o grande traído nesta história tinham sido eles próprios, ao contradizerem seus próprios corações, permitindo que a promiscuidade, que é a grande maleza que corrói a maioria de todos os corações, não mais lhes permitindo a fidelidade, guiassem suas atitudes irrefletidas.

Portanto, se você ainda não se sente capaz de está com alguém, ainda não se sente capaz de amar, não se prenda a um relacionamento fixo e que requer cumplicidade, ou se está sentindo que o amor acabou, está fragilizado,e que a relação está desgastada, não traia e diga que mesmo assim ama, por que quem ama não trai. Só abra a boca para dizer eu te amo se você realmente sentir isso. E por fim jamais troque um namoro, um casamento ou um amor por uma aventura sexual, por que, ainda que você diga que não está fazendo essa troca traindo a pessoa que te ama, você está fazendo bem mais do que isso. Você estará atirando ao lixo tudo o que ela lhe devota e requer de você, e estará traindo a si próprio, ao seu próprio coração deixando-se seduzir por emoções passageiras.

E para você que foi traído, está sendo traído ou desconfia que está sendo traído deixo esta mensagem: o amor é um paradoxo, pois que ama não trai, mas quem ama perdoa.

Uma mensagenm para ser refletida, é claro, pois haverá aqueles que dirão: se se pode perdoar, então eu posso trair. Mas até quando haverá perdão? Certamente enquanto existir amor, e a traição é uma afiada espada capaz de decepar e arrancar o mais forte dos amores de dentro de todo e qualquer coração.